9 de maio de 2009

FRENTE CONTRA A CORRUPÇÃO

EDITORIAL - JORNAL DO COMMERCIO (PE)
O que não falta no Congresso Nacional e na vida política brasileira em geral são escândalos, maiores ou menores, que se sucedem monotonamente sem quase despertar mais indignação e revolta da sociedade. A representação política dos brasileiros na máquina do Estado nunca se baseou, desde o Império, num pacto entre forças políticas realmente representativas nem mirou os interesses públicos. Historicamente, ela se fundamenta em arranjos de elites, sem participação de toda a sociedade, e consequentemente mira interesses bem restritos, com ênfase no grupal e até no familiar, no pessoal. Basta observar a ânsia de certos candidatos para se eleger, sem um programa, sem a adesão a um partido que mereça este nome, com promessas vãs que nem serão cobradas, pois frequentemente a eleição se torna apenas um negócio e o povo já se acostumou com isso. Daí decorre a questão das mordomias, das sempre crescentes verbas para isso e aquilo pagas aos congressistas. O Congresso, desde a mudança da capital federal para Brasília, encastelou-se em privilégios que nunca têm limite. Para convencer os parlamentares a se mudar para o então inóspito Distrito Federal e lá fazer o seu trabalho, o presidente Juscelino Kubitschek proporcionou-lhes de início apartamentos gratuitos, o que não tinham no Rio de Janeiro. A partir daí, a avalanche de privilégios não parou mais, agora por conta dos próprios congressistas, que nunca se satisfazem.Eles encontraram um caminho para aderir à filosofia e prática patrimonialistas que veem das capitanias hereditárias. Suas Excelências não têm em geral a humildade realista de refletir: sou um representante de meus eleitores, do povo do meu Estado, não sou melhor que ninguém. Qual nada! Ao contrário, num país de tantas injustiças, desigualdades, resolvem usar o cargo como alavanca de promoção social e de enriquecimento. As demais casas representativas do País, mesmo que não tenham mudado de cidade, seguiram o exemplo da corte e não param de multiplicar privilégios, que generosamente distribuem também com familiares e amigos, seguindo a inspiração que vem do Planalto Central.Além de tantos privilégios, alguns legais, mas imorais, há os que partem para incrementar o patrimônio com mensalões (regidos pelo governo, conforme denúncia do procurador-geral da República), negócios com votações e outras estripulias por conta própria. O escândalo da vez, nas últimas semanas, é o da farra com passagens aéreas fornecidas a parlamentares para seus deslocamentos aos Estados de origem. Os representantes do Distrito Federal também teem esse “direito”, embora suas “bases”, como eles falam, estejam ali mesmo.De repente, descobriu-se que esses bilhetes aéreos são repassados, sem limite, para amigos, cabos eleitorais, sogras e até ex-namoradas (não se trata nem de titulares). Em defesa do abuso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu-se com uma pérola: seria crime utilizar uma passagem para levar a esposa a Brasília? Ninguém havia questionado essa demonstração de amor conjugal. Foi mais além o presidente revelando que, quando era deputado, pagava passagens de sua quota para sindicalistas. Filosofia: eu faço, todo mundo faz, e está tudo certíssimo.Alguns parlamentares demonstraram indignação com o estouro do novíssimo escândalo. Como se desconhecessem os costumes vigentes na corte. Mas indignação às vezes é começo de mudança. É bom. Algo nessa indignação deve ser ancorada na sinceridade e na vontade de melhorar a imagem tão deteriorada do Poder Legislativo. Melhorar não só essa imagem, mas a própria realidade, é vital para a democracia. Sem Congresso, assembléias legislativas, câmaras municipais (ou com elas funcionando mal) nunca teremos democracia.Alguns parlamentares estão tentando criar uma frente contra a corrupção, um dos articuladores é o deputado pernambucano Paulo Rubem Santiago. Essa frente merece o apoio de toda a sociedade, independentemente de quem ou dos partidos que estejam na sua liderança. Mas o fundamental mesmo é uma profunda reforma política (a mãe de todas as reformas), capaz de dar finalmente substância à representação política dos brasileiros

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