Mostrando postagens com marcador Acordo nuclear Brasil/Irã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Acordo nuclear Brasil/Irã. Mostrar todas as postagens

10 de junho de 2010

RESPOSTA DO IRÃ: VAI MANTER PROGRAMA DE ENRIQUECIMENTO DE URÂNIO

         Foram 12 votos a favor das sanções e dois contra (Brasil e Turquia). O Líbano se absteve


O Irã anunciou nesta quarta-feira (9) que vai continuar seu programa de enriquecimento de urânio, apesar das novas sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. "Nada vai mudar. A República Islâmica do Irã vai manter suas atividades de enriquecimento de urânio", disse Ali Asghar Soltanieh, enviado do Irã na AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU), com sede em Viena, logo depois da aprovação da medida na ONU em Nova York. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, também rejeitou as sanções aprovadas hoje. Para ele, as sanções "não valem um centavo" e devem ir "para o lixo".
As potências ocidentais queriam medidas mais duras, inclusive contra o setor energético iraniano, mas China e Rússia conseguiram diluir as punições previstas no documento de dez páginas.
A resolução prevê restrições a mais bancos iranianos no exterior, caso haja suspeita de ligação deles com programas nuclear ou de mísseis. Estabelece também uma vigilância nas transações com qualquer banco iraniano, inclusive o Banco Central.
Além disso, ela amplia o embargo de armas contra o Irã e cria entraves à atuação de 18 empresas e entidades, sendo três delas ligadas às Linhas de Navegação da República Islâmica do Irã, e as demais vinculadas à Guarda Revolucionária.
A resolução estabelece também um regime de inspeção de cargas, semelhante ao que já existe em relação à Coreia do Norte.
Paralelamente à resolução, 40 empresas serão acrescidas a uma lista pré-existente de empresas com bens congelados no mundo todo, por suspeita de colaboração com programas nuclear e de mísseis do Irã.
A nova lista negra inclui um indivíduo chamado Javad Rahiqi, diretor de um centro de processamento de urânio. Ele terá bens congelados e será proibido de viajar ao exterior.
Foco de acaloradas discussões de última hora, a nova lista que surgiu na manhã de terça-feira continha 41 empresas, inclusive dois bancos. Ao final do dia, a China exigia a exclusão de um deles, o Banco de Desenvolvimento das Exportações do Irã.
Suspeitas do Ocidente
A relação das potências ocidentais com o Irã se deteriorou com rapidez após a CIA (agência de inteligência dos EUA) detectar por satélite a existência da usina de enriquecimento de urânio escondida dentro de uma montanha próxima da cidade sagrada xiita de Qom em setembro de 2009.
A descoberta gerou consequências imediatas. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU) aprovou resolução que condenou o Irã por uma arrasadora maioria e pela primeira vez em três anos, em 27 de novembro do ano passado. Dos 35 países membros da agência nuclear da ONU, 25 votaram a favor da resolução, três (Cuba, Venezuela e Malásia) contra e seis, entre eles o Brasil, se abstiveram. Pesou ainda o fato de Teerã não cooperar com a agência, sonegando informações e visitas-surpresa dos agentes da AIEA.
O regime iraniano teve de admitir a construção da nova instalação, mas, apesar da condenação, anunciou a construção de dez centrais nucleares, além de indicar a redução ao mínimo de sua colaboração com a agência da ONU.
A desconfiança do Ocidente começou anos antes da revelação da usina em Qom. Em 2002, o Conselho Nacional de Resistência do Irã (de oposição) havia revelado que o país construía uma instalação nuclear subterrânea secreta em Natanz, denúncia ratificada pela AIEA no ano seguinte. Ainda em 2003, pressionado pelo Ocidente, o Irã anunciou a suspensão do enriquecimento de urânio.
No ano seguinte, a agência da ONU revelou a construção de túneis nas montanhas ao lado da usina de Esfahan, onde o urânio seria preparado para ser enriquecido. Mais dois anos se passaram até o próprio presidente Mahmoud Ahmadinejad anunciar a retomada do enriquecimento de urânio. E mais do que isso: iniciou os testes de centrífugas de nova geração (como as do tipo "P2"), para o enriquecer o urânio mais rapidamente e em maior quantidade.
Em dezembro de 2009 -- já depois de a AIEA condenar o Irã -- o Conselho Nacional de Resistência divulga novo relatório em que eleva de 14 para 19 o número de bunkers que esconderiam bases militares nucleares.
Em março deste ano, o jornal "New York Times" revelou que o Irã estava construindo pelo menos duas novas instalações nucleares secretas em montanhas, para protegê-las de eventuais ataques.

1 de junho de 2010

DESMENTIDO DOS EUA IRRITA ITAMARATY

Patrícia Campos Mello - O Estado de S.Paulo

Governo brasileiro critica tentativa de funcionários da Casa Branca de pôr em dúvida teor da carta enviada por Obama a Lula sobre pacto com Irã




O governo brasileiro ficou extremamente irritado com a tentativa dos Estados Unidos de desmentir a carta enviada pelo presidente Barack Obama ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em relação ao acordo de troca de combustível nuclear do Irã. Uma entrevista concedida ontem por funcionários americanos voltou a inflamar as divergências entre Brasil e Estados Unidos.



"Causa estranheza ouvir de representantes do terceiro ou quarto escalão do governo dos EUA frases que põem em dúvida o que a mais alta autoridade americana afirmou, por meio de carta, ao presidente de outro país", disse ao Estado um alto funcionário do governo brasileiro.



Na sexta-feira, funcionários do governo americano convocaram uma entrevista para esclarecer sua posição em relação ao acordo costurado pelo Brasil e pela Turquia com o Irã no dia 17. Segundo eles, o acordo é "inaceitável" e os EUA continuarão buscando a imposição de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil esperava que o acordo fosse dar espaço a mais negociações com o Irã e adiar as sanções. O governo americano também tentou fazer um "controle de danos" causados pelo vazamento de uma carta enviada por Barack Obama a Lula em 20 de abril. Na carta, segundo o Itamaraty, o presidente americano estimulava o líder brasileiro a alcançar o acordo de troca de combustível nos mesmos moldes do proposto em outubro : o Irã se comprometeria a enviar 1200 quilos de seu urânio à Turquia, de onde ele seria enviado para ser enriquecido na Rússia e França, e devolvido depois de um ano para o Irã em forma de combustível para um reator de pesquisas médicas.



Defasagem. Mas, na entrevista de sexta-feira, os americanos disseram que o acordo fechado pelos brasileiros está defasado, porque os iranianos continuaram enriquecendo urânio desde outubro. "O tempo invalidou a proposta original e isso não foi considerado na declaração de Teerã", disse o funcionário americano.



O Itamaraty aponta que nada disso estava dito na carta, que mencionava os mesmos 1.200 quilos de urânio.



O canal de comunicação entre os dois países foi bastante prejudicado. Outra afirmação que irritou o governo brasileiro foi a de que a carta enviada por Obama ao presidente Lula não se tratava de "instruções para negociação". Os americanos disseram que nunca "pediram aos brasileiros que saíssem negociando em nome dos americanos".



"É ofensivo imaginar que o governo brasileiro consideraria uma carta de chefe de Estado estrangeiro como "instruções" para a atuação externa do Brasil. Mas a carta do presidente Obama deixa muito claro que o acordo de troca de urânio seria uma forma de criar confiança e avançar no tratamento da questão nuclear iraniana", disse o funcionário brasileiro de alto escalão.



O governo brasileiro não entende se houve arrependimento dos americanos em relação à carta, ou se há grandes divisões dentro do governo americano sobre a questão iraniana. Para eles, questões de política interna estariam se sobrepondo à orientação da política externa.



Lobbies. A secretária de Estado Hillary Clinton, mais linha-dura em relação ao Irã, também estaria sendo pressionada por lobbies dentro do país, importantes para arrecadação de recursos para a eleição legislativa de outubro nos EUA. Com isso, o país estaria abandonando seu viés mais negociador, diplomático, na questão iraniana.



O funcionário também disse que o chanceler Celso Amorim nunca achou que o acordo de troca de combustível resolveria todos os problemas em relação ao Irã. "Mas Celso Amorim reafirma que a Declaração de Teerã é uma porta de entrada para criar confiança e permitir a discussão dos temas de preocupação de ambos os lados." E declarou que a carta de Obama ia na mesma linha.