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4 de junho de 2010

AMISTOSO AJUDA DITADURA DO ZIMBÁBUE






Sexta-feira, Junho 04, 2010

Amistoso ajuda imagem da ditadura no Zimbábue

Cassio Curvo em 3/06/2010  .

 Folha de São Paulo

Para ditador, jogo é honra, e Lula, aliado

Mugabe diz à Folha que amistoso ajuda muito a imagem do Zimbábue



Bem-humorado com a presença da seleção brasileira em seu país, o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, disse à Folha, na saída do Estádio Nacional de Harare, que vê o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um aliado na luta contra o isolamento internacional.
Considerado um pária em parte da Europa e nos EUA, Mugabe disse ter encontrado Lula no mês passado no Irã, durante visita ao presidente Mahmoud Ahmadinejad.
Cercado por ao menos dez soldados de sua temida guarda presidencial, todos armados com fuzis AK-47, Mugabe atendeu ao pedido de entrevista ao saber que se tratava de um jornalista do Brasil.
Parou por um minuto e meio e respondeu a seis perguntas no trajeto da tribuna de honra do estádio a sua limusine. Relutantemente, a escolta deixou o repórter entrar alguns metros no perímetro de segurança.
Aos 86 anos, sendo 30 no poder, Mugabe aparenta ótima saúde. A voz é firme, e o andar, rápido para um homem de sua idade. Só ao descer dois degraus precisou se escorar em dois soldados. (FÁBIO ZANINI)



Folha – O sr. gostou do desempenho do seu time?
Robert Mugabe – Sim, claro! Nós demos a eles [Brasil] bastante trabalho.



Qual a sensação de ter hospedado o Brasil no Zimbábue?
É um grande evento para nós. O Brasil, como você sabe, é um bom time, o melhor time do mundo, provavelmente. Nos deram uma honra. Estamos muito felizes.



Como estão as relações entre Brasil e Zimbábue hoje?
Temos boas relações. Temos relações diplomáticas, dividimos ideias, temos um bom comércio…



Que ideias vocês dividem?
Ideias em relação, por exemplo, à agricultura, em relação a várias políticas e assim por diante. O Brasil é um país agrícola, entende? É um povo agrícola, e nós também somos um povo agrícola.



O presidente Lula é aliado?
Sim, sim, eu estive com ele no mês passado. No Irã, em Teerã, nós estivemos juntos.



Essa partida é um endosso ao seu governo?
Claro, ajuda muito a imagem do Zimbábue. Pelo menos é o que eu espero.



***** *****



Quer saber mais sobre Mugabe?



Veja, por exemplo, o que diz Luiz Carlos Azenha, aquele que afirma que viu o mundo. Enquanto alguns vêem e entendem, ele apenas viu, e parece que não entendeu nada.



"Mugabe foi devidamente demonizado pela mídia ocidental, especialmente pela britânica, embora não seja o mais cruel, nem o pior dos ditadores da África. Mugabe não foi demonizado apenas pelo que fez de ruim, mas provavelmente pelo que fez de bom para aqueles que o defendem. Mugabe fez a reforma agrária! Tirou terras dos brancos e as transferiu para fazendeiros negros. Foi o único líder africano, desde o fim do colonialismo europeu, nos anos 50, que mexeu neste vespeiro." (aqui)

Pelo que escreve o Azenha, Mugabe é uma espécie de ditador bonzinho (sim, para a esquerda eles existem), que retirou terras dos brancos para entregar aos negros, fazendo a reforma agrária. Não, as mortes nestes casos foram irrelevantes.


Essa expropriação de terras foi apenas um de tantos factóides que arruinaram ainda mais a economia daquele país – ou "uma das mais devastadas do mundo … a maior taxa de inflação do planeta" (veja aqui) -, uma forma de se manter no poder.


Após isso o Zimbábue passou de exportador de grãos a importador, e, não tendo dinheiro para isso, a fome agora campeia no país. Este é o amigo de Lula e dos governantes de esquerda.


Existe muito mais para ler sobre esse ditador (leia mais aqui e aqui) e o que esse pessoal também entende por democracia.

3 de junho de 2010

TEMPO PERDIDO



O GLOBO

MIRIAM LEITÃO
O Zimbábue que a seleção visitou ontem, e derrotou no jogo amistoso, vive uma longa tragédia.

Nunca vou esquecer o ambiente de esperança dos países que haviam se libertado do colonialismo e dos governos racistas. Era o início dos anos 1980, e a comitiva do Brasil evitou a África do Sul. Foi a Tanzânia, Zâmbia, Angola, Moçambique e Zimbábue.

O roteiro foi desenhado pelo Itamaraty, na política externa independente da época, sob o comando do ministro Ramiro Saraiva Guerreiro, para visitar todos os países que eles chamavam “a linha de frente”.

A comitiva, que incluía toda a cúpula do Itamaraty e funcionários de diversos órgãos do governo brasileiro, visitou todos os vizinhos da África do Sul, mas evitou o país do apartheid, regime que o Brasil repudiava.

A política externa fez da viagem um pronunciamento político. O Brasil que havia sido o primeiro a reconhecer o governo do Movimento Popular de Libertação de Angola, em 1974, que reconheceu o governo da Frente de Libertação de Moçambique, estava lá para dizer que a África com a qual o país queria se relacionar, fazer negócios, e acalentar raízes comuns, era a África que renascia do combate ao racismo e ao colonialismo.

Na Tanzânia, vi o encontro do ministro Guerreiro com o líder da libertação Julius Nyerere; em Moçambique, vi o inusitado, o jovem presidente Samora Machel chegando de moto para o trabalho. Joaquim Chissano que, anos depois, o sucedeu no governo, era o ministro das Relações Exteriores. Angola era o caso mais triste porque ainda estava em violenta guerra civil e com toque de recolher. Zimbábue parecia o mais organizado e mais promissor de todos os países. O primeiro ministro era Robert Mugabe, um homem que tinha lutado contra o regime racista da antiga Rodésia, também tinha ido para prisão e fazia parte de um governo da frente contra de libertação. Exatamente como anos depois aconteceu na África do Sul sob a liderança de Nelson Mandela.

A história do que se passou nas décadas seguintes mostra que a qualidade de uma liderança determina, às vezes, o destino de um país, para o bem ou para o mal. Mandela, libertado em 1990, se transformou no líder da conciliação e tolerância, unificou o país, consolidou a economia, saiu do poder e se transformou no maior ícone vivo dos tempos atuais. O país evidentemente tem inúmeros problemas e o atual presidente está bem longe do modelo, mas Mandela deixou um inegável saldo positivo.

No Zimbábue, Robert Mugabe de primeiro-ministro foi para a presidência, em 1984, e do cargo jamais saiu. Perseguiu e expulsou as lideranças brancas, e depois perseguiu os líderes políticos negros que não faziam parte do seu grupo.

Como a produção agrícola e industrial do país estava sob o comando dos beneficiários do antigo regime, ele acabou demolindo a estrutura produtiva. Conduziu eleições fraudulentas e comanda um governo corrupto.

É uma antítese de Mandela. Fez muito bem o Dunga de recusar-se a ir visitar seu palácio.

O país não apenas regrediu.

Ele entrou num processo prolongado de recessão, que pode ser definido como depressão. Nos últimos 10 anos, o PIB encolheu em todos e em alguns momentos chegou a diminuir 7% num ano. Como se não bastasse, o país entrou num processo de hiperinflação aberta que devastou o que restava da economia.

Os números da hiperinflação zimbabuana ainda são confusos, alguns especialistas dizem que ela se tornou a maior da história, outros, que ela foi a segunda maior, perdendo para a hiperinflação húngara, em 1946. Mas certamente superou a mais famosa das hiperinflações, que foi a alemã, de 1922-1923. Veja no quadro abaixo do professor Steve Hanke.

Em julho de 2008, 10 zeros foram cortados da moeda, o país chegou a imprimir uma nota de 100 bilhões de dólares zimbabuanos.

No final de 2008, o Banco Central parou de divulgar dados da inflação, em janeiro do ano passado, num estágio final de abandono da moeda local, o país oficializou o uso de várias moedas estrangeiras, entre elas, o dólar.

O Zimbábue que viveu esse horror econômico paga hoje um trágico preço: 80% da população está abaixo da linha da pobreza, o desemprego é devastador e o país perdeu seu futuro. E perdeu também os anos de forte crescimento da África, de 2002 a 2008, quando Angola chegou a crescer 23% num único ano. A reconstrução do Zimbábue só tem chances de acontecer apenas na era pós-Mugabe.