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31 de maio de 2010

PAÍS NÃO ESTÁ PRONTO PARA A NOVA CLASSE MÉDIA, DIZ BOLIVAR



 NA FOLHA DE S. PAULO

É preciso "evitar o oba-oba", afirma doutor em ciência política e diretor de instituto de estudos econômicos

Entraves do país são infraestrutura, mão de obra especializada e educação, diz autor de "A Nova Classe Média"

Uirá Machado

SÃO PAULO-

 O Brasil não está pronto para a nova classe média.

Tampouco esse segmento populacional está devidamente preparado para suas recentes conquistas em termos de mobilidade social.

As afirmações são de Bolívar Lamounier, doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia e primeiro diretor-presidente do Ipesp (Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo).

Em parceria com Amaury de Souza, ele acaba de lançar o livro "A Nova Classe Média" (Campus-Elsevier).

Na entrevista abaixo, ele discute a sustentabilidade da nova classe média e diz ser preciso "evitar o oba-oba".

Folha - Quais são as principais características dessa nova classe média?

Bolívar Lamounier - Estamos falando de algo em torno de 80 milhões de pessoas, um agregado social imensamente heterogêneo. É um megaprocesso de mobilidade social. É o conjunto da classe C ascendendo a condições e aspirações mais altas de consumo . Em razão disso, as famílias que a integram tornam-se mais "ambiciosas". Têm mais interesse em aumentar sua renda, querem um nível educacional mais alto para si e para seus filhos, manifestam desejo de obter um bom emprego ou de se estabelecer por conta própria etc.

Essa nova classe média é "sustentável"?

No nível macro, a sustentabilidade depende do crescimento econômico a taxas elevadas -e ambientalmente compatíveis. Hoje, no Brasil, há um clima de exagerado otimismo, mas é preciso cautela para não cantarmos vitória antes do tempo. Por outro lado, o que chamamos de ascensão da classe C se confunde em larga medida com a expansão do mercado interno e a redução das desigualdades de renda, condições que tendem a tornar o processo inteiro mais sustentável, quer dizer, menos suscetível a crises. O nível micro refere-se à geração da renda pelas famílias, à educação, ao empreendedorismo etc. Por exemplo, existem milhões de pessoas "empreendedoras", mas muitas não estão preparadas para isso. Do outro lado, a política pública mais dificulta que ajuda: carga tributária elevada, complicações burocráticas etc.

O Brasil está pronto, do ponto de vista estrutural, para essa nova classe média?

O avanço realizado nas últimas duas décadas é muito grande, mas eu não diria que está pronto. Basta atentar para a infraestrutura, obviamente incapaz de sustentar taxas elevadas de crescimento, a mão de obra especializada -que já começa a faltar- e a educação, de modo geral muito ruim.

E a nova classe média está preparada?

É preciso evitar o oba-oba. O aumento do consumo é salutar e as pessoas têm atualmente aspirações altas. Além de adquirirem mais escolaridade, os indivíduos precisam investir mais em si mesmos, ou seja, em sua própria produtividade, seja para conseguir empregos estáveis e de boa qualidade, seja para se tornarem empreendedores.


Frase
"Há no Brasil um clima de exagerado otimismo, mas é preciso cautela para não cantar vitória antes do tempo"

Bolívar Lamounier
cientista político

28 de maio de 2010

CLASSE D AGORA VAI AOS BANCOS




Gasto de R$ 380 bi da classe D atrai bancos
Autor(es): Angela Bittencourt, de São Paulo
Valor Econômico - 28/05/2010

A perspectiva de gastos de R$ 380 bilhões pela classe D neste ano atrai os bancos, que investem para receber uma massa de clientes despreparados para lidar com o universo financeiro.

Na última década, dobrou o número de aplicadores com até R$ 5 mil no mercado. Em 2009, 136 milhões de brasileiros tinham dinheiro guardado.

O movimento formiguinha anima os bancos e justificou pesquisa do Data Popular para a Febraban mapeando esse novo personagem. A constatação é que o consumidor acredita que a vida melhorou e vai continuar melhorando.

De olho no avanço da população de baixa renda para a classe média, os bancos "investem" para receber uma massa de investidores despreparados para lidar com o universo financeiro.

Um batalhão de consumidores reunidos na classe D, turbinado por crescimento econômico consistente e vigorosa oferta de trabalho, tem poder de compra suficiente para sancionar gastos de R$ 380 bilhões em bens e serviços apenas em 2010 - cifra que vai superar a soma do consumo das classes B e C, calcula o Bradesco.

A chegada desse batalhão atordoa economistas preocupados com demanda e inflação, alegra o comércio e anima os bancos.

Na última década, mostra o Fundo Garantidor de Crédito, dobrou o número de aplicadores de até R$ 5 mil no mercado brasileiro. No final de 2009, cerca de 136 milhões de clientes tinham algum dinheiro no "colchão".

Cadernetas de poupança, títulos de capitalização e títulos bancários estão no foco do movimento "formiguinha", incentivador da mobilização de grandes bancos na formatação de produtos, treinamento de mão de obra e educação financeira.

Os bancos correm para mapear a nova clientela por constatar que valores e comportamentos que pautam o relacionamento com clientes de maior porte ou renda, nem sempre se aplicam aos clientes emergentes.

O Bradesco atende o segmento da baixa renda há dez anos. O Banco do Brasil atua fortemente há três anos. A Caixa oferece produtos a esse público desde 2003, ampliando sua presença nesse mercado a partir de 2006.

Uma pesquisa do Data Popular para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) dá dicas para lidar com esse novo cliente.

Briga de casal, cano entupido e pneu furado, que tiram a paciência de qualquer um, podem implodir o orçamento de milhões de brasileiros, levando à inadimplência, mostra a pesquisa.

Lazer e imprevistos não são racionalizados e, por isso, não são computados no orçamento doméstico que pode ser abalado por eventos corriqueiros.

Entre os "grandes" imprevistos que podem desequilibrar os clientes da baixa renda estão uma gravidez inesperada, a morte de um familiar, uma doença ou uma separação. Entre os "menores" estão pneu furado, assalto ou um convite inesperado para um aniversário.

O Data Popular avisa que dinheiro, para esse segmento de cliente, é um meio e não um fim. Não há preocupação em construir patrimônio financeiro, mas em garantir bem-estar para a família e para os amigos.

A pesquisa alerta que o consumidor acredita que sua vida melhorou e que vai continuar melhorando. Portanto, um programa de educação financeira não pode caminhar na direção contrária a este otimismo. O mercado de trabalho forte incentiva os bancos a acolher os aplicadores emergentes. Em contraponto, o desemprego e a informalidade servem de alerta para riscos de inadimplência.