Na defesa da reforma política e do financiamento público de campanha, o ministro Tarso Genro, da Justiça, argumentou que empresários brasileiros costumam embutir nos preços das licitações das quais participam um valor extra a ser destinado futuramente a custear candidaturas. O ministro deixou claro que os organismos de controle estão sempre atentos a essas distorções, mas acabou ampliando as dúvidas entre quem acompanha a mais recente tentativa de levar adiante uma reforma política no país. O financiamento público de campanha é um dos aspectos em debate, assim como a instituição de lista fechada. Mais uma vez, porém, a deflagração do debate em meio à crise enfrentada pelo Congresso desde a divulgação do escândalo das passagens aéreas pode acabar fazendo com que uma tentativa de moralização da política contribua até mesmo para agravar as dificuldades nessa área, que já não são poucas.Certamente, é inaceitável a situação conhecida, em que fornecedores se organizam entre si para disputar negócios no poder público, superfaturando o valor de obras e serviços para destinar parte das verbas auferidas a políticos em campanha. Um mal, porém, não pode dar margem a outro, que seria a aprovação de uma reforma que a sociedade em geral deseja, mas amplamente discutida e nunca a toque de caixa. Se existem deformações no relacionamento entre os setores público e privado a ponto de serem admitidas com tanta naturalidade, é preciso que sejam extintas, e os responsáveis de ambos os lados, punidos.O difícil é imaginar que, num momento de escassa ou quase nenhuma credibilidade do Congresso, os eleitores possam se mostrar entusiasmados com a possibilidade de financiar políticos com dinheiro dos impostos. É igualmente impensável a possibilidade de os brasileiros se mostrarem convencidos de que, bancados com verba oficial, os políticos passem a usá-la sem recorrer a deformações. Mesmo num país historicamente mais rigoroso com a ética do que o Brasil, como é o caso da Alemanha, o uso de dinheiro público para bancar campanhas não conseguiu evitar desvios. Mais recentemente, o então candidato norte-americano Barack Obama preferiu usar recursos captados pela internet aos destinados oficialmente para custear a campanha.Da mesma forma, intenções como a de instituir o voto em listas e não em candidatos são, em princípio, uma tentativa louvável de fortalecer os partidos, e a experiência de outros países onde já é aplicado comprova isso. Mais uma vez, porém, o risco, num momento de instabilidade política como o atual, é o de a mudança servir apenas para fortalecer os caciques partidários, sem contemplar de fato o interesse dos eleitores e os da boa política.O país carece de uma reforma adequada às suas necessidades, e não simplesmente às dos políticos. Qualquer mudança nessa área, porém, precisa ser antecedida de muito debate, pois não pode servir apenas como desculpa para contornar crises ou para pôr fim a relações promíscuas entre governos e fornecedores.
9 de maio de 2009
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