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13 de junho de 2010

UMA CAMPANHA SÓ DE CANDIDATOS

Coisas da Política - Mauro Santayana
Autor(es): Wilson Figueiredo
Jornal do Brasil - 13/06/2010

Vai finalmente começar a ser resolvido neste fim de semana o impasse dos vices que emperraram a campanha eleitoral, tanto do lado do governo quanto da oposição. Tudo começou quando o presidente Lula precipitou o jogo da sucessão para se livrar dos boatos sobre terceiro mandato. Indicou a ministra Dilma Rousseff e ficou por conta da candidatura. Virou o jogo mas deixou a candidata sem parceiro. Não resolveu o assunto com o PMDB, que não abriu mão da oportunidade de ter, pelo menos, o vice. Sem vices, nada feito.
Candidaturas e providências continuam precedidas do prefixo para disfarçar a suspeita de operações eleitorais. Só há pré-candidatos. A questão do vice é a última carta de que o diabo dispõe. A oposição espreguiçou-se para sacudir a modorra e empurrou o governador José Serra, com a ressalva de pré-candidato, para o palco onde um novo dossiê, devidamente aportuguesado, mostra que nada mudou para valer. O PMDB ofereceu seu presidente, mas o PT nem mugiu. Lula insiste na lista tríplice e no seu direito de escolher. No PSDB, a ideia de que Aécio Neves pudesse resignar-se a ser vice foi amadorismo. Para quem, como governador de Minas, figurou como candidato a presidente, em igualdade de condições com o governador de São Paulo, prêmio de consolação é pouco.

Falou-se no PSDB, mas apenas por falar, numa iniciativa mais alta do que lance político, uma solução histórica: o convite à ministra Ellen Grace para dignificar a sucessão como vice na chapa da oposição. É inacreditável que seja mais fácil no Brasil escolher candidatos a presidente, governadores e prefeitos do que alcançar consenso em relação ao vice. A rigor, não há Vice-Presidência, mas apenas vice-presidente.

No início da campanha, sob expectativas desencontradas, um diagnóstico médico lançou sobre a pré-candidata Dilma Rousseff a sombra de uma dúvida que, até ser afastada clinicamente, paralisou o andor. A reserva de candidatura de Lula para 2014 tem a mesma geometria do lembrete com que o presidente bossa nova comunicou aos cidadãos, na inauguração de Brasília, a disposição de se candidatar no futuro: JK 65. O presidente era imbatível em eleição, mas não havia reeleição e, em 1965, já não houve nem mesmo a eleição com que JK contava.

Em 1960, a eleição do vice João Goulart foi o lastro com que o eleitorado quis contrabalançar o risco de eleger Jânio Quadros. Era a primeira vez que se elegeriam presidente e vice de chapas diferentes. E também a última. Foi assim que, por não haver reeleição, Jânio Quadros desapertou para a direita. Certo de que recairia sobre Jango o veto dos ministros militares, encaminhou ao Congresso a carta de renúncia e esperou a consequência (que não viria, porque o pedido foi atendido no ato). As consequências implícitas se explicitaram. É sempre assim.

1 de junho de 2010

MAIS PROBLEMAS QUE SOLUÇÃO




JORNAL DO BRASIL

WILSON FIGUEREDO

Quem trouxe à baila, com senso de oportunidade, a questão relativa aos candidatos a vice, cuja escolha não pode mais ser adiada sob pena de trazer consequências imprevisíveis, foi o (pré) candidato José Serra, que em tom de desabafo reconheceu que o melhor companheiro de chapa, pelo menos no que lhe diz respeito, é aquele que aporrinhar menos. Foi na mosca. Os pretendentes formam um enxame e, quando chega a estação eleitoral, não há repelente que os disperse.

Vice dá trabalho. Antes, durante e depois de aprovado. Nem é por falha pessoal, mas pela própria distância entre a aparência e a impaciência que possa movê-lo tendo em vista apenas dois mandatos seguidos. A própria palavra vice, tal e qual, deve ter alvoroçado Roma no seu auge, ela define de modo restritivo a função de uma pessoa que substitui outra na expectativa da oportunidade. O sentido original, em latim, implica também a expectativa de vir a ser. Vice tem a ver com vez, oportunidade, alternativa, sucessão. Entra na composição de muitas expressões que fazem parte do dia a dia universal. Por natureza, vice com ampla variedade de aplicações frequenta vida militar, civil, política, eclesiástica. É inesgotável sua aplicação, e não falha no que depender da natureza humana (na maioria das vezes, o vice não dignifica a função).

Às exceções compete confirmar as regras: não existe vice do papa, que com isso se poupa de muitos aborrecimentos, assim na terra como no céu. Como José Serra acaba de dizer em bom português, o melhor vice é o que menos aporrinha, e não só na expectativa de ganhar a função ociosa. Em bom português, aporrinhar vem a ser o que chateia para ser escolhido e, daí por diante, se for premiado, sustenta uma incógnita. Titular e vice são unidos pela desconfiança recíproca.

Ninguém pode dizer que tenha ouvido falar de vice-ditador. Melhor não tê-lo do que se aborrecer e se arrepender por não contê-lo. Getulio Vargas, nos áureos tempos, dispensou os préstimos formais dos vices. Serra considera que o melhor vice vem a ser o menos insistente. Uma sombra como o senador Marco Maciel era em relação a Fernando Henrique, de quem foi vice para ninguém botar defeito, exatamente pelo dom de apagar-se diante do Sol. Talvez nem ele se lembre.

A evidência de que vice é mais problema do que solução é que esta já é a mais inutilmente prolongada campanha pré-eleitoral da República, e até agora não há ninguém garantido.

Mesmo porque vices não passam pelo crivo das pesquisas de opinião. São avaliados no olho e no currículo ético. Além do mais, há um cuidado sobrenatural no trato do assunto, porque a fama de azarado é incurável. Bem fez a monarquia que, mesmo sobrevivendo por amostragem, não recorre a votos para resolver questão de família.

No dia em que o espírito republicano, sem apelar para golpes de Estado (abaixo da cintura), enxotar da Constituição o vice, que é o apêndice da democracia, valerá por uma operação preventiva de apendicite. Nunca mais se registrarão os problemas correlatos. Um vice-presidente, para manter tudo no plano das ideias e no mais alto nível, não gera em língua portuguesa uma peça teatral com sotaque shakespeareano. Só um novo Nelson Rodrigues situaria nossos vices no seu devido nicho.

A diferença entre o governante eleito e o ditador, no caso do vice-presidente, resolve-se democraticamente com a supressão do vice. Ponto para ditador, que não quer uma Vice-Presidência para tirar-lhe o sono. As crises entram em cena por intermédio dos vices, que começam a aporrinhar muito antes de se elegerem, montados na garupa do candidato a presidente. Além do mais, a democracia acaba desqualificada pela dispensa de votos próprios, sem os quais o vice chega ao poder pela porta dos fundos. Quando tinham votos, nem por isso a democracia se sentiu em casa, na sua passagem por aqui entre 1946 e 1964, por ocasião da crise final do governo Vargas: o presidente e o seu vice (pelas razões que pedem desculpas por manterem silêncio em respeito ao presidente e sem desrespeito ao vice) mudaram o curso da História do Brasil. O resto não precisou esperar.

31 de maio de 2010

QUANDO O VICE É ÚTIL

FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE S. PAULO



BRASÍLIA - Começo por onde terminou ontem o mestre Clóvis Rossi, aqui no andar de cima desta página. Com muitas coberturas eleitorais acumuladas, Rossi escreveu sobre a relativa insignificância de candidatos a vice-presidente. Falou a propósito da ansiedade no mundo tucano pela possível entrada do mineiro Aécio Neves na chapa presidencial de José Serra.


Notícias relacionadas

Ontem, o próprio Aécio apareceu em entrevista a Adriana Vasconcelos minimizando a ajuda eventual sendo o candidato a vice de Serra: "Isso poderia aumentar em no máximo 5% as intenções de votos em favor de Serra em Minas".



É possível teorizar ao infinito a respeito do tema. Na vida real, as eleições recentes mostram três eventuais utilidades para um vice:



1) tempo de TV: é quando a sigla do vice dá ao titular mais tempo no horário eleitoral. Em 1994 e 1998, essa simbiose ocorreu com Marco Maciel (DEM, ex-PFL) apoiando Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Neste ano, Michel Temer (PMDB) anabolizará a exposição televisiva de Dilma Rousseff (PT);



2) mudança de imagem: em 2002, o vice de Lula foi o empresário José Alencar, então no PL. O petista ganhou mobilidade no establishment. Circulou com conforto pela elite. Não faltou dinheiro na campanha do PT;



3) mais voto: embora seja raro, um vice popular pode ajudar o desempenho do titular nas urnas.



Houve um exemplo claro em 1989. Waldir Pires era o vice da candidatura presidencial de Ulysses Guimarães (1916-1992), cuja votação final ficou em pífios 4,7%, no 7º lugar. Na Bahia deu-se uma história diferente. Waldir renunciou ao governo baiano. Fiel no posto de vice, garantiu naquele Estado a Ulysses 15,7% e a terceira colocação.



Tudo considerado, Aécio Neves pode não desejar ser vice, mas há exemplos históricos mostrando a possibilidade de fazer a diferença. Não parece ser, no momento, o desejo do ex-governador mineiro.

30 de maio de 2010

SERRA MIRA POLÍTICA EXTERNA




João Bosco Rabello


O ESTADO DE S. PAULO


Aparentemente desconectada da campanha eleitoral, pela natureza do tema (drogas), a crítica do candidato José Serra ao governo boliviano obedece a uma estratégia de contestação da política externa brasileira, questionando sua eficiência e relação custo/benefício para o Brasil.

Para não pôr em risco o princípio de respeito à soberania das nações a abordagem crítica explora a relativização do conceito democrático e dos direitos humanos pelos países que recebem tratamento privilegiado do governo Lula.

Nesse contexto, a Bolívia foi precedida por Venezuela, Cuba e Irã e, no plano estritamente comercial, pela Argentina e China. Em pílulas, Serra vai expondo seu pensamento revisionista para a chancelaria brasileira.

Traz para o debate eleitoral a possibilidade de explorar as contradições do governo Lula, de discurso e prática democráticos no plano interno, mas indiferente aos desmandos em Cuba e Venezuela, tolerante com movimentos como as Farc, à qual ainda reconhece status político, e ingênuo na ação pela paz no Oriente Médio.

A politização do Mercosul e o reconhecimento da China como economia de mercado deram visibilidade ao conflito comercial e produziram a proposta de introduzir no currículo do Itamaraty a especialização em comércio externo, cuja gestão no governo é fragmentada, em ministérios e departamentos.

A serviço de Roriz

Setores do Ministério Público não gostaram do contexto festivo em que Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais do governo Arruda, disparou sua mais recente denúncia, contra o presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ).

Como já depusera sobre o suposto envolvimento de Maia com Arruda, o ato público foi interpretado como um favor a Joaquim Roriz, candidato a um quinto mandato pelo governo do DF, dessa vez pelo PSC.

Pressionado pelas autoridades para delatar Roriz, de cuja administração foi peça-chave, Durval mostra-se cada dia mais obediente ao ex-chefe, mesmo ameaçado de perder a contrapartida pela delação premiada, que é a redução de pena. Roriz está empenhado em tirar de seu caminho o DEM, seu concorrente ao governo local e também a parceiro numa possível aliança com o PSDB.

Vice a toda prova

A abertura de temporada no PSDB pela escolha do vice de José Serra, desmente todas as tentativas do partido de negar a espera excessiva pelo ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves, apesar de todas as suas reafirmações de que concorreria ao Senado. De qualquer forma, o não definitivo de Aécio empresta objetividade ao Plano B dos tucanos, que pode ser o senador Marco Maciel, titular do cargo nos dois governos de Fernando Henrique. Ele volta a ganhar força por aglutinar o DEM em torno de seu nome, mas são mencionados ainda o ex-presidente do partido, Pimenta da Veiga e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO).

O VICE, O INÚTIL TÃO QUERIDO



FOLHA DE S. PAULO

CLÓVIS ROSSI

SÃO PAULO - No tempo em que fazia um programa de humor, não um "talk-show", Jô Soares costumava ironizar a figura do vice (qualquer vice): dizia que vice não virava nome de rua, vice não ganhava estátua em praça pública.

É verdade. Vice, a rigor, só é importante quando morre ou é destituído o titular. Que o digam José Sarney e Itamar Franco.

Vice nem aparecia na cédula eleitoral, que, aliás, nem existe mais. Da desimportância do vice, como fator de atração do eleitor, dá prova José Alencar.

Alguém aí acha que Alencar trouxe um voto, unzinho que fosse, para Luiz Inácio Lula da Silva?

Só foi chamado porque Lula queria um empresário para acalmar os que ainda o consideravam um perigoso comunista. Hoje, é verdade, Alencar teria votos, não por sua ação como vice, mas por sua brava luta contra o câncer.

Por tudo isso, me diverte o esforço despendido pelo tucanato para emplacar Aécio Neves como vice de Serra. A menos que a cacicada do PSDB tenha informações privilegiadas sobre a saúde de Serra e, por isso, ache prudente ter Aécio como o futuro presidente e não como o futuro vice.

Será que alguém acredita que algum eleitor, unzinho que seja, raciocina assim: Ah, vou votar no Serra porque o vice dele é o Aécio?

Pode acontecer -e até acontece muito- que o eleitor pense: Quem é o candidato do Aécio? É o Serra. Ah, então voto nele.

Mas, aí, independe da posição que Aécio ocupe no xadrez eleitoral tucano. Depende da convicção e do empenho com que diga que seu candidato é Serra. Ponto.

É o que faz Lula com Dilma. Por isso, ela, virgem em disputas eleitorais, já empatou com Serra, por mais que seu vice, muito provavelmente, venha a ser Michel Temer, que não chega a empolgar multidões -acho até que não empolga nem a ele próprio