EDSITORIAL: ESTADO DE MINAS
Ao pôr os interesses do país acima de tudo, Brasil demonstra ter amadurecido O adiamento da visita que o presidente do Irã faria amanhã ao Brasil, em razão do recrudescimento do processo eleitoral em seu país, pode dar tempo para que se reflita sobre essa delicada empreitada da diplomacia brasileira em favor dos interesses do país nas relações de comércio e no jogo político mundial. A viagem do presidente Mahmoud Ahmadinejad vem precedida e já está sendo marcada por uma série de protestos das comunidades judaicas e dos movimentos de defesa dos homossexuais em todo o país. São os ecos das agressivas manifestações do líder da república islâmica, que tem defendido absurdos como a extinção do Estado de Israel e a inexistência do Holocausto dos judeus pela Alemanha nazista – ambas claramente condenadas pelo Brasil, em nota oficial da chancelaria –, além de atos de repressão violenta ao homossexualismo. Também pesa o fato de que, mesmo depois da eleição de Barack Obama, Washington ainda não amenizou seu tratamento com Teerã. Tudo isso só aumenta o desafio que representa a recepção a Ahmadinejad. Será uma demonstração de amadurecimento, tanto diplomático como democrático. Diplomático, exatamente por Ahmadinejad representar o polo oposto às tradicionais posições das nações ocidentais mais influentes. O Brasil terá a oportunidade de consolidar sua tradição de se posicionar fora dos radicalismos – o que justifica a censura às recentes manifestações do presidente iraniano –, mas também de ser flexível e capaz de conviver entre contrários. É isso que pode nos credenciar a exercer estratégico papel de mediador acreditado e que pode ajudar o Irã a romper o isolacionismo em que se encontra. E democrático, por permitir, sem qualquer repressão, as manifestações de repúdio à presença de tão polêmico visitante, ao mesmo tempo em que lhe dará acolhida adequada ao chefe de um Estado com o qual mantemos relações diplomáticas e comerciais. O Irã chegou a ser o principal destino das exportações brasileiras no Oriente Médio, que, em 2007, passaram de US$ 1,8 bilhão, cifra atualmente afetada pelas restrições impostas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Não é à toa que Ahmadinejad vem trazendo numerosa comitiva de empresários. Mas se é inegável o potencial a ser explorado nos próximos anos, em favor da economia dos dois países, é também estratégico para o Brasil o reforço da relação diplomática com o Irã. Afinal, no centro das preocupações do Ocidente está o controvertido programa nuclear iraniano, apesar de aquele país integrar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Há ainda uma coincidência pouco diculgada: está em negociação a escolha do próximo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), hoje ocupado por Mohamed El Baradei. O posto, que tem peso estratégico valorizado ante as sinalizações de boa vontade dos Estados Unidos de negociar a redução das tensões no mundo, cairia como uma luva para as justas pretensões diplomáticas brasileiras. Portanto, mesmo que a visita de Mahmoud Ahmadinejad não renda nada de imediato, além dos protestos contra a sua presença, o Brasil só terá a ganhar por firmar tanto seu não-alinhamento, quanto a não- rejeição automática a governos eleitos democraticamente.
5 de maio de 2009
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