EDITORIAL: O OGLOBO
Contradições entre o que defendeu no passado e como age no presente são uma das características de Lula. O que não é necessariamente mau, como no caso da condução da economia, em que o presidente, sensato, deixou no passado o palavrório radical a favor de calotes nas dívidas externa - esta, aliás, paga no decorrer de sua gestão - e interna, assim como de outras perigosas heterodoxias. Também entra no capítulo das contradições entre o Lula de oposição e o Lula no poder o atrelamento das centrais sindicais ao Estado, no melhor estilo varguista, modelo criticado com veemência pelo metalúrgico Luiz Inácio. Mas talvez não haja desencontro maior entre o que defendia, ou simbolizava, aquela emergente liderança sindical e a forma como ele age no Planalto do que a montagem do Bolsa Família, a grande usina de obtenção de votos por meio do toma lá dá cá do clientelismo, prática das mais deletérias e retrógradas. A eficácia do programa como curral eleitoral já foi provada em 2006. Reportagem publicada domingo no GLOBO trouxe o retrato ampliado do que foi montado em pouco mais de seis anos de governo Lula: o programa atingirá direta e indiretamente, em 2010, ano de eleições, um em cada três brasileiros, sendo que em estados nordestinos - onde Lula teve votações esmagadoras em 2006 - aproximadamente metade das populações depende do Bolsa Família. E ainda: entre as 1.200 cidades irrigadas pelo dinheiro do Bolsa Família, 20% dos municípios brasileiros, há algumas em que quase todos os habitantes são dependentes do dinheiro público. O problema não é o Bolsa Família em si, mas as dimensões a que chegou. Mecanismos de transferência direta de renda são necessários em países com grandes desníveis sociais. Mas se justificam apenas para os necessitados - e eles são bem menos que os 52 milhões atendidos pelo programa, demonstram pesquisas do IBGE. E mesmo assim é preciso que cumpram contrapartidas que os levem a não mais depender da ajuda oficial. Por isso, a Bolsa, antes de ser Família foi Escola, por atrelar o recebimento do dinheiro à matrícula dos filhos, maneira de garantir a ascensão social futura. Com o gigantismo do programa, o controle das contrapartidas se tornou problemático (há ainda a exigência de visitas periódicas a postos de saúde), mas a usina de votos funciona a todo vapor. A ponto de nem mesmo a oposição ousar dizer que parte dos R$11 bilhões tragados pelo Bolsa Família por ano poderia ter melhor uso, para os próprios pobres, na educação básica. Teme, com razão, ser sacrificada nas urnas. Portanto, só há uma alternativa para desmontar esta máquina clientelística, custoso monumento ao que tem de pior na política brasileira: o próximo presidente criar de fato as tais portas de saída, para que o beneficiário das esmolas oficiais consiga sobreviver do próprio trabalho, e libere recursos a serem gastos com vistas a melhorar o padrão de vida da população de forma sustentável, sem artificialismo e instrumentos daninhos de cooptação de apoio popular.
5 de maio de 2009
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