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31 de maio de 2010

PARA WALL STREET, BRASIL TEM SÓ CENTRO-ESQUERDA


Valor Econômico - 31/05/2010

Autor(es): Alex Ribeiro

Brasil





Em 2002, os mercados financeiros mundiais erraram feio na leitura dos riscos das eleições que levaram Lula à Presidência, achando que estávamos próximos de uma catástrofe. Neste ano, poucos parecem se importar com a política brasileira. Será que, agora, os riscos estão subestimados?



Jerome Booth, da Ashmore, empresa baseada em Londres que administra US$ 33 bilhões nos mercados emergentes, tem uma leitura bastante interessante das eleições brasileiras deste ano.



"Todos os políticos no Brasil são de centro-esquerda", afirma Booth, em conversa com o Valor. Ele segue a nossa economia há cerca de duas décadas e, portanto, não é um novato no assunto, como o grande grupo de investidores que, em anos mais recentes, descobriu o Brasil. "Vocês não têm direita, mas não há extrema esquerda também."



O mundo político brasileiro, afirma Booth, é hoje um animal bastante conhecido, por isso realmente não faz muita diferença quem assumirá o poder. "Existem políticas econômicas sensatas e políticas econômicas insensatas", avalia. "No Brasil, as políticas econômicas sensatas são a regra."



Ao contrário dos investidores estrangeiros, os mercados domésticos, de certa forma, já incluíram nos preços o risco das eleições. Em linhas gerais, acham que a candidata do PT, Dilma Rousseff, é fraca na área fiscal. Já o candidato do PSDB, José Serra, representa uma ameaça à independência da política monetária e também ao sistema de câmbio flutuante.



Há cerca de dez dias, Dilma esteve em Nova York, acompanhada pelo ex-ministro Antonio Palocci, para enviar uma mensagem tranquilizadora a Wall Street. Foi direto ao ponto: manteve o compromisso de redução da dívida pública, prometeu uma reforma tributária e declarou que está esgotado o modelo de uso de bancos públicos para alavancar investimentos de longo prazo.



No geral, o discurso foi bem recebido, mas sempre fica a dúvida se as palavras foram escolhidas apenas para agradar. A proximidade de Dilma Rousseff com Palocci foi muito bem vista, mas ainda é incerto o papel que ele teria num novo governo petista. É muito mais provável que as posições de destaque sejam dadas ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e ao secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.



Esses pontos são discutidos pelo analista político Christopher Garman, um diretor do grupo Eurásia, baseado em Washington. Num texto distribuído a clientes da consultoria, ele faz uma leitura bastante interessante da candidatura Dilma, questionando a sabedoria convencional sobre os riscos econômicos de uma eventual vitória da petista. O problema, afirma, não é tão feio no lado fiscal, e os investidores deveriam prestar mais atenção no lado monetário e cambial.



Para saber o perfil econômico de uma eventual administração Dilma, afirma Garman, o melhor é observar o que pensa o economista Luciano Coutinho, o mais provável ministro da Fazenda. "Ele não fez muitas declarações públicas sobre política fiscal, mas ele é um conservador na área e acha que os gastos públicos devem ser contidos para ajudar a esfriar a economia e desafogar a política monetária", afirma. Barbosa, nota, está afinado com essa visão.



Garman pondera, em entrevista a essa coluna, que não se deve esperar uma política fiscal espetacularmente virtuosa de um novo governo petista. Mas também não é o caso de fazer uma leitura extremamente pessimista, sem levar em conta que Dilma provavelmente tomará as medidas para garantir um padrão mínimo de solvência fiscal.



De outro lado, porém, os mercados têm ignorado a opinião de economistas próximos a Dilma nos campos monetário e fiscal. "Coutinho é um forte defensor de uma política industrial mais ativa, e sua visão em política monetária e cambial estão em linha com economistas que acham que o Banco Central poderia ter feito mais para diminuir os juros nos dois mandatos de Lula sem gerar pressões inflacionárias", afirma Garman, no texto distribuído aos clientes.



"Não menos importante, ele acredita que a forte moeda nacional cria um problema real para o Brasil desenvolver uma plataforma industrial exportadora diversificada, então ele seria mais inclinado a tomar medidas adicionais para lidar com a apreciação da moeda." Barbosa também é muito próximo a essa linha de raciocínio. Garman coloca todos esses riscos em perspectiva, ponderando que o governo Dilma deverá respeitar a independência do BC, mas talvez procure nomear nomes menos conservadores.



Ou seja, pode se concluir que, se o Brasil é hoje um país de centro-esquerda, os riscos entre os candidatos Serra e Dilma têm mais semelhanças do que diferenças nos campos fiscal, monetário e cambial.



Alex Ribeiro é correspondente em Washington. O titular da coluna, Sergio Leo, está em férias.

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