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28 de maio de 2010

MOVIMENTO SE UNIA PARA DEPOIS RACHAR





Valor Econômico - 28/05/2010

Em abril de 1977, ao mesmo tempo em que o então presidente Ernesto Geisel fechava o Congresso para passar reformas constitucionais, o operário Hugo Perez era eleito vice-presidente da Federação dos Trabalhadores da Indústria Urbana. Sete meses mais tarde, estariam frente a frente. Após concluir curso no Ministério do Trabalho, Perez, orador da turma, tomou a palavra, se dirigindo a Geisel. Tratava-se de um procedimento normal, este do orador da turma de trabalhadores treinados transmitir ao presidente os cumprimentos pela oportunidade. Perez, por outro lado, aproveitou a atenção do presidente militar para alertar sobre os movimentos de operários que começavam a ganhar corpo em São Paulo. Disse que os trabalhadores, principalmente os das fábricas, se organizavam e clamavam negociação direta com as companhias. "Os empresários promovem seu congresso anual. Queremos ter a mesma chance, de promover um congresso da classe trabalhadora". Ali, em 07 de novembro de 1977, em frente ao presidente Geisel, nascia a ideia de unir os trabalhadores numa grande assembleia.

As manchetes dos jornais, no dia seguinte, serviram de embrião para as greves que se seguiriam. A ideia de uma grande assembleia só ganhou corpo, no entanto, quatro anos mais tarde. No meio tempo, os sindicalistas de São Paulo, com Perez e Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, à frente, promoviam greves e debates sobre o fim da ditadura. Ao mesmo tempo, em São Bernardo do Campo, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC, liderou quatro grandes greves. "Mas foi só no final de 1981, em caráter de urgência, que os trabalhadores de São Paulo e do país todo finalmente se uniram", diz Perez, em entrevista ao Valor.

Realizada entre os dias 21 e 23 de agosto daquele ano, na Praia Grande (SP), a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) foi recebida como o grande "divisor de águas" do movimento sindical brasileiro. Até hoje, dirigentes sindicais de diferentes correntes avaliam que os rumos do movimento, desde então, foram definidos pelos erros e acertos da Conclat. "Foi tirado, em plenária, que faríamos um congresso dos trabalhadores no ano seguinte. Aquilo foi um erro", diz Perez. Em 1982 foram realizadas as primeiras eleições - para o governo do Estado - desde o plebiscito de 1963. "A pauta sindical ficou nublada com as eleições", avalia.

Para Perez, que esteve à frente da primeira Conclat dividindo bancada com Lula e Joaquinzão, a Conferência que será realizada na semana que vem no Estádio do Pacaembu é semelhante à realizada em 1981 no sentido programático. "Nossa agenda", diz, "era a agenda da sociedade. Queríamos liberdade de expressão e recomposição salarial. Hoje a pauta das centrais vai fundo em temas comuns, como redução de jornada e fortalecimento do salário mínimo". Mas há diferenças. "Nós convidamos todo mundo. Tinha de marxista comunista a trotkista, petista, gente que apoiava o MDB, de tudo".

Em 1981, os sindicalistas se uniam, principalmente, em torno da luta pela distensão política - a ditadura já sangrava, diante da crise econômica que fez o PIB despencar 4,2% naquele ano, mas só deixaria o poder em 1985. Se antes o movimento era anti-Estado, agora há uma relação mais próxima com o Estado. "Não só o presidente é um ex-líder sindical, como ele tem atendido reivindicações do movimento e fortalecido as centrais", diz Perez. O sindicalista, atualmente consultor da Força Sindical, avalia que se a Conclat da próxima semana for "bem sucedida", as centrais ganharão legitimidade para clamar por mais poder.

Após a Conclat de 1981, os sindicalistas ligados ao PT, criado um ano antes, levaram à frente a ideia de criar uma central única - em 1983, com a fundação da CUT. Descontentes, como Joaquinzão, formaram uma central dissidente - a CGT, em 1986. Perez, anos mais tarde, se ligaria a uma dissidência da CGT, a Força Sindical, criada em 1991. A explosão de centrais, nos anos 90, caminha para o fim, avaliam líderes sindicais ao Valor. Das seis entidades reconhecidas pelo Ministério do Trabalho, apenas uma - a União Geral dos Trabalhadores (UGT) - não participa da Conclat na semana que vem. (JV)


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