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9 de junho de 2010

PIB: FESTA, MAS COM CAUTELA

Autor(es): Carolina Eloy

Jornal do Brasil - 09/06/2010

CRESCIMENTO "MADE IN" CHINA

O ritmo acelerado de crescimento do país no primeiro trimestre não é sustentável, e, segundo economistas, as medidas do governo de retirada de estímulos fiscais e aumento dos juros devem desacelerar esta expansão já nos próximos meses. O Produto Interno Bruto (PIB, geração de riquezas do país) avançou 2,7% em comparação ao trimestre anterior e 9% ante o mesmo período de 2009, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

– Vivemos um momento de ouro no país. O Brasil merecia e precisava disso.

Fui esculhambado quando disse que a crise era só uma marolinha, e o Brasil foi o último a entrar na crise e o primeiro a sair – disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comemorando o crescimento do PIB.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o resultado superou as expectativas.

Ele elevou a estimativa de expansão do PIB para este ano, que era de até 6%, para até 6,5%.

“Caminhamos para um crescimento sustentável.

Não podemos esquecer a fraca base de comparação.

A indústria, por exemplo, teve um crescimento negativo em 2009. Em 2010, a economia brasileira deverá ter um crescimento de 6% a 6,5%”, concluiu.

Recuperação da crise O ministro ressaltou que o avanço do PIB mostra que a economia brasileira teve uma das melhores recuperações do mundo no que se refere à crise financeira internacional registrada em 2009.

“O resultado faz parte de um conjunto de medidas de políticas monetária e fiscal que foram muito bem-sucedidas. Na comparação internacional, apenas a China teve um crescimento desta magnitude”, avaliou.

Ex-presidente do Banco Central e sócio da Consultoria Tendências, Gustavo Loyola disse ao JB que o aumento de 13,1% das importações no primeiro trimestre mostra que a indústria não conseguiu acompanhar os pedidos com o aquecimento do mercado interno.

Loyola ressalta que o aumento das importações é um recurso muito usado para evitar a alta dos preços.

Ele estima uma inflação acima de 5% para este ano combinada à expansão de 6, 5% PIB.

– Depois do período de crescimento é natural uma certa acomodação da economia, como deve acontecer nos próximos trimestres.

A demanda também não tem tanto espaço para aumentar ao longo do ano e deve começar a ficar compatível com a oferta nacional – avalia Loyola.

A utilização da capacidade instalada da indústria aumentou 0,8 ponto percentual e praticamente retornou ao patamar pré-crise, chegando a 83% em abril, contra 83,1% em setembro de 2008, segundo indicadores divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O faturamento da indústria caiu 4,9% em abril na comparação com março deste ano. Esta foi a segunda queda registrada em 2010. Em janeiro, as vendas industriais haviam recuado 3,2% em relação a dezembro do ano passado.

– Depois de um primeiro

trimestre muito intenso, com resultados muito fortes, já era esperada essa acomodação. Entre as razões está o fim de alguns estímulos fiscais, para eletrodomésticos e automóveis – disse o gerente executivo de Pesquisa da CNI, Flávio castelo Branco.

A maior alta no PIB do primeiro trimestre foi na indústria (4,2%), com agropecuária (2,7%) e serviços (1,9%) em seguida. Em relação aos componentes da demanda interna, o maior destaque foi o crescimento de 7,4% no primeiro trimestre da formação bruta de capital fixo, que registra a ampliação da capacidade produtiva futura.

Professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), Nilton Marques destaca que vários setores da indústria estão saturados e poderiam enfrentar escassez de mão de obra se o ritmo de crescimento do primeiro trimestre se repetisse.

– O país está praticamente sem capacidade ociosa, e mesmo um pequeno aumento das encomendas pode significar elevação de preços – explica.

O crescimento do PIB foi o mais alto desde 1995 na comparação com os mesmos períodos. A taxa de investimento no primeiro trimestre de 2010 foi de 18% do PIB, superior à taxa de igual período do ano anterior (16,3%).

– O crescimento é alto.

Não deveria ser tão alto. É surpreendente e exagerado.

Deveria ser de 6% a 6,5%. Não só é capaz de gerar inflação, como de criar outros problemas na área de logística. Temos de resolver uma série de questões em logística que ainda não resolvemos – disse o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge.

Ele disse que está havendo uma reacomodação por várias razões.

“Como reduções de incentivos, aumento de juros, aumento do compulsório pelo BC. Tudo isso está levando a uma reacomodação do nível de atividade”, disse Jorge.

Ritmo chinês O professor de finanças e economia da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), Rogério Sobreira, explica que a economia brasileira não está preparada para crescer no ritmo chinês. A economia deve crescer de 6,5% a 7%, o que para Sobreira não plenamente sustentável, e a inflação deve ficar em torno de 5,5% este ano.

Sobreira destaca que o volume de investimentos nacionais deveriam ser maiores, em torno de 22% para sustentar a expansão de 9% do PIB e compara com a taxa de investimento da China que fica acima de 25% do PIB.

– O Brasil tem gargalos como o custo do capital, a elevada carga tributária e a baixa eficiência da educação que dificulta o aumento de investimentos no país – diz Sobreira.

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