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1 de junho de 2010

TRANSFERÊNCIA DE VOTOS

O GLOBO



MERVAL PEREIRA
A vitória, na Colômbia, do candidato governista, Juan Manuel Santos, com mais do dobro dos votos do segundo colocado, o candidato do Partido Verde, Antanas Mockus (47% contra 21,5%), trouxe novamente para o primeiro plano político a discussão sobre a capacidade de transferência de votos de um líder político.

Como aqui no Brasil, onde Lula tem até 80% de aprovação, também na Colômbia o presidente Álvaro Uribe tem o mesmo nível de popularidade e, pelas pesquisas de opinião, até uma semana antes da eleição, parecia não estar conseguindo transformar em votos para seu candidato esse enorme prestígio popular.

As pesquisas, que indicavam empate entre os dois candidatos, erraram clamorosamente como se viu, mas este não é um ponto comum com as nossas eleições.

Domingo, logo que o resultado oficial foi proclamado na Colômbia, participei no Jornal das Dez, da Globonews, de um debate sobre os resultados, em que o professor de Relações Internacionais da UFRJ Marcelo Coutinho chamou a atenção para a diferença entre os institutos de pesquisas dos países andinos e os nossos.

Segundo ele, em geral, as pesquisas nos países andinos erram muito. Erraram nas eleições peruanas, bolivianas, equatorianas. Costumam ter uma margem de erro superior à dos institutos de opinião brasileiros ou chilenos, que são de melhor qualidade. A razão é a dificuldade de chegar a alguns recantos do país, especialmente no interior.

Outro erro grave foi o do terceiro colocado, Germán Vargas Lleras, que recebeu 10% dos votos e aparecia em quinto ou sexto lugar nas pesquisas eleitorais de uma semana antes da eleição.

Já o cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, aponta outra razão para os erros dos institutos de pesquisa.

Com o voto facultativo, eles não conseguem prever quem vai e quem não vai votar, aumentando assim a margem de erro. O voto na Colômbia não é obrigatório, mas a abstenção de 45% acontecida na eleição de domingo está dentro da média histórica.

O candidato do Partido Verde, Antanas Mockus, disse na campanha que as políticas sociais do presidente Lula servirão de base para sua atuação, caso se eleja.

O professor Marcelo Coutinho comenta que, embora Mockus se espelhe em Lula, disse em outro momento da campanha que simpatizava com o tucano José Serra.

Ele é de uma vertentesocialdemocrata que o aproxima de lideranças de esquerda que defendem uma maior intervenção do estado.

Chegou a dizer que é favorável ao aumento da carga tributária na Colômbia para apoiar políticas públicas.

O interessante é que essa vitória do candidato do presidente Álvaro Uribe é boa para a tese de Lula de que a popularidade se transforma em votos, mas ele e o PT estavam torcendo pela vitória de Mockus.

Assim como Chávez, da Venezuela, que anunciou seu apoio ao candidato do Partido Verde da mesma maneira que fez com a candidata petista Dilma Rousseff.

O professor Marcelo Coutinho destaca que Mockus conseguiu 21% dos votos, e, em 2006, a oposição, liderada pelo Polo Democrático Alternativo, teve os mesmos índices, o que demonstra que não houve um aumento do número de oposicionistas.

Uma característica da eleição colombiana foi que, dos nove partidos que lançaram candidatos à Presidência, apenas um se diz de esquerda, todos os outros são de direita.

É justamente o Polo Alternativo Democrático, que hoje está, junto com os partidos Conservador e Liberal, fora do centro político depois de terem dominado a política colombiana por muitos anos.

Por isso, Coutinho destaca como fator decisivo da vitória de Santos, além da popularidade de Uribe, a hegemonia do grupo político conservador, que vai além do próprio Uribe.

Juan Manuel Santos tem uma história política que remonta ao ex-presidente Andrés Pastrana, de quem foi ministro da Fazenda. Esse grupo está há muitos anos no poder, e há uma hegemonia conservadora na Colômbia.

Esta seria uma diferença fundamental em relação à candidata de Lula, que não tem tradição política, nem mesmo dentro do PT.

E nem está ligada aos pontos de sucesso do governo Lula, embora ele tente transformar o PAC em um sucesso, e fazer de Dilma a responsável por tudo em seu governo.

Outra diferença básica é que, na eleição brasileira, todos os candidatos principais são de esquerda.

Mas a maioria do eleitorado brasileiro se declara de direita ou no máximo de centro, como demonstrou uma pesquisa do Datafolha. Nada menos de 37% das pessoas se dizem entre a centro-direita e a extrema-direita. E só 20% entre a centro-esquerda e a extrema-esquerda.

Dos eleitores de Dilma Rousseff (PT), 35% se dizem de direita, 26% de esquerda e 16% de centro. No caso de José Serra (PSDB), há 43% de direita, 17% de esquerda e 18% de centro.

A transferência de votos de um presidente popular, como Lula ou Uribe, estava em xeque depois de outra eleição envolvendo um presidente popular, Michele Bachelet, do Chile, que não conseguiu eleger seu candidato.

No Chile, porém, Bachelet não se meteu na campanha no primeiro turno, e quando decidiu pedir votos para seu candidato no segundo turno, Eduardo Frei subiu com força e ficou somente a dois pontos de distância de Sebastião Piñera no placar final.

Na Colômbia, Uribe tem feito campanha à beça, e, no Brasil, Lula está empenhado na eleição de Dilma Rousseff, ressalta o cientista político Alberto Carlos Almeida.

Outra semelhança entre a eleição da Colômbia e do Brasil é que em ambos os pleitos os dois presidentes estão disputando um terceiro mandato por intermediários.

Uribe só não disputou diretamente por que o Supremo proibiu. Lula não chegou a pleitear formalmente continuar no poder, mas está tentando convencer seus seguidores de que Dilma será ele no governo novamente.

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