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10 de junho de 2010

QUANTO DÁ PARA CRESCER



Celso Ming
O Estado de S. Paulo - 10/06/2010


De todas as direções brotam dúvidas e advertências sobre a sustentabilidade do crescimento do PIB apresentado no primeiro trimestre (equivalente a 11,2% ao ano).

Desta vez, ninguém apareceu para afirmar que é só manter o ritmo e a predisposição a investir que a economia aguenta. Há meses o Banco Central vem passando sinais de que o setor produtivo não tem preparo físico para manter essa velocidade. Ou seja, avisa que a capacidade de produzir está à beira do esgotamento e que, agora, será preciso desacelerar para evitar inflação, distensão muscular e rompimento dos tendões da economia.

Não está claro qual é o crescimento potencial real da economia. Há alguns anos, o Banco Central sugeria que fosse algo em torno de 3,5%. Um avanço do PIB acima desse passo implicaria fortes desequilíbrios. O ex-ministro Delfim Netto sempre zomba de quem crava números tão exatos, baseados mais em palpite que em cálculos confiáveis. Ontem, o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore advertiu que, se o investimento fosse de 20% do PIB, o crescimento sustentável da economia poderia ser de 4,5%. E, se o investimento chegasse a 25% do PIB, talvez o PIB pudesse crescer 5,5%. Ainda assim, haveria desequilíbrio nas Transações Correntes (contas externas), porque as importações teriam de ser fortemente acionadas e, ao mesmo tempo, o aumento do consumo interno deixaria menos excedentes para exportar.

No Brasil, o comportamento dos investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo), que deveria mostrar a quantas anda a capacidade de produção futura, encerra mais incógnitas do que certezas. Em 2009, a construção civil correspondia a 41,1% do PIB, como pode ser aferido na tabela ao lado (não há dados mais atualizados). Pouca coisa no avanço da construção civil equivale a aumento de capacidade produtiva. Novas moradias, por exemplo, não proporcionam aumento da produção. Construção de fábricas ou estradas apresenta, sim, fator multiplicador da produção. Mas não há nenhum elemento que possa dizer qual é isso no Brasil.

Outro componente dos investimentos é a aquisição de bens de capital. Sempre que uma empresa compra máquinas, caldeiras ou fornos está semeando produção futura. Mas não basta afirmar que a predisposição ao investimento em máquinas está aumentando. É preciso saber qual é o prazo de maturação dessas iniciativas. Uma hidrelétrica não fica pronta em menos de cinco anos. Enquanto isso, a aquisição de Tecnologia de Informação pode ter uma resposta bem mais rápida.

Essa é matéria onde se caminha no escuro no Brasil, mas a falta de conhecimento não é razão para forçar demais os músculos produtivos, como alguns sugerem. Uma séria lesão pode provocar prejuízos irreversíveis para a economia.

Conforme previsto
A decisão do Copom (aumento dos juros básicos de 0,75 ponto porcentual, para 10,25% ao ano) foi o que já se esperava. Duas novidades reforçaram a decisão. O impressionante avanço do PIB anunciando na véspera justifica a desaceleração. E a alta de preços uniformemente espalhada no varejo sugere que a inflação de demanda já é bem mais do que uma hipótese. Não ficaram claros os passos seguintes do Copom. A próxima reunião está agendada para 21 de julho, quando a campanha eleitoral terá começado a esquentar.

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