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4 de junho de 2010

O JORNAL DO MEU BAIRRO

Ivan Lessa


Colunista da BBC Brasil





Aparece na minha caixa postal mais ou menos uma vez de três em três meses. Leio de cabo a rabo, conforme manda o protocolo antigão aplicável em coisas beirando o nostálgico. Na verdade, o jornal de meu bairro, ou região administrativa, vem com o nome algo pomposo de meu endereço postal. Chama-se ela, a publicação, Royal Borough.

Muito pimpona de ser real. Ela está certa. Diz respeito às andanças e paranças de onde moro, o Royal Borough of Kensington and Chelsea. Nunca entendi o que havia de real, no sentido de pertencente à realeza, no Borough, pois vou logo pegando a intimidade que três décadas de residência no referido bairro me dão direito.

Real. Como existente e concreto quase que juro que é verdadeiro. Eu disse “quase”. O mundo e a vida são ilusões passageiras, disse um filósofo chinês que passou, acabou e cujo nome nem eu nem ninguém se lembra mais.

Lá está na primeira página do mais recente exemplar do RB (vamos abreviar o nome do bichão): editorial de três colunas explicando o que vai acontecer nos próximos quatro anos, agora que as eleições garantiram mais uma vez o tradicional caráter Conservador do bairro (“administração regional” me afasta de seus bem cuidados jardins e serviços públicos).

Vão continuar, prometem, tentando botar nos eixos a economia local. Gozado. Nunca notara que ela estava fora dos eixos. Sempre achei tudo certinho embora muito caro, mas supus que isso se devia à realeza embutida em cada centímetro de asfalto e de verde do bairro.

Vou em frente. Ou melhor, para o lado do editorial. A vereança local (são os councillors) acabou de inaugurar, ao norte do bairro, um centro para crianças com instalações para aquelas com problemas de deficiência física.

Logo embaixo: Holland Park, um dos mais bonitos e simpáticos parques de Londres, recebe nesta primavera a aprazível visita de alguns residentes temporários. A saber, uma porca da prestigiosa raça Saddleback e seus três filhotes. Bem vindos, Dona Porca e seus porquinhos.

Em tempo: o Royal Borough é grátis e entregue a 87 mil lares e estabelecimentos comerciais da administração regional. Há, para quem necessitar, edições em tape ou em braille, além de outras línguas, pois nós, os reais residentes de Kensington e Chelsea, somos multiétnicos.

Uma correção na segunda página informa que o vereador Keith Cunningham não é quem preside o grupo de trabalho de apoio às vítimas de estupro. O importante cargo, na verdade, cabe á vereadora Catherine Atkinson.

A comissão para obras de maior importância no bairro deverá se reunir, no seu equivalente à câmara municipal, agora mesmo no dia 7 de junho, seguida das que supervisionarão serviços gerais, no dia 8, e saúde, no dia 16.

A administração regional comunica que estão abertas as inscrições para os pubs e bares de Kensington e Chelsea candidatos aos melhores do bairro, agora pelo terceiro ano consecutivo. De minha parte, folgo em saber que o pub (mas agora mais para o bar, como virou moda) Drayton Arms, o meu chamado local (ou seja, o que um residente contempla com o pastel premiado de sua preferência) venceu a competição em 2009. Como se torcendo num estádio da África do Sul, aplaudo e, de pé e em voz alta, solto meu “Já ganhou! Já ganhou! O bi é nosso!”

Em suas 16 páginas repletas de novidades, algumas alegres (o real bairro estará sorteando férias grátis à beira-mar próximo ao Carnaval de agosto), outras tristes (faleceu Antony Carr-Gomm, vereador pelo distrito de Abingdon entre 1975 e 1986. 11 anos de bons serviços prestados) tomo conhecimento de que os interessados em adotar crianças de todas as idades e origens étnicas devem se dirigir ao centro Isaac Newton, em Lancaster Road.

E, no mote imortalizado por Vladimir Nabokov, mais, mais, muito mais.

Senti falta de palavras cruzadas. Ou, ao menos, de um modesto sudoku. Mas a real púrpura de Kensington e Chelsea não pode abranger toda a gama das necessidades de seus residentes.

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