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9 de junho de 2010

O DESEMPREGO NO PIBÃO

Vinicius Torres Freire

FOLHA DE S. PAULO

No país do PIB "exuberante", custo do trabalho qualificado sobe, mas ainda há muito desemprego e informalidade

O aspecto mais importante do crescimento do PIB, divulgado ontem pelo IBGE, foi a taxa de desemprego, que não foi divulgada ontem nem consta das estatísticas das contas nacionais, como se sabe. Se a economia mantivesse o ritmo registrado no primeiro trimestre, o crescimento seria de mais de 11% neste ano. Nesse mesmo trimestre, a taxa de desemprego, também medida pelo IBGE, esteve em torno de 7,4%. A inflação passou da meta oficial, 4,5%, chegando perto de 6%. E daí?

Daí que, mesmo a uma velocidade de crescimento que exigirá uma pisada no freio, a economia tem desemprego alto, muita informalidade e escassez de trabalho qualificado.O crescimento foi "exuberante", como disse Lula ontem. Para muito economista, e mesmo para aqueles mais otimistas, os do Ministério da Fazenda, "exuberante" significa demasiado, ou "insustentável", no jargão. Por ora, as projeções mais sensatas indicam que o país deve crescer, enfim, 7% ao fim de 2010 -isto é, a economia vai se desacelerar.

Por que insustentável? Porque a capacidade produtiva e a infraestrutura não dão conta do nível de consumo. Salários e outros custos de produção sobem. Há inflação e/ ou o país importa demais.

Em economias mais maduras e organizadas, o nível de emprego é um indicador relevante de superaquecimento da economia. Abaixo de certa taxa de desemprego, os salários podem subir além do aumento da produtividade, provocando alta de custos que se dissemina pelo conjunto da economia.

Há muita polêmica sobre como medir o nível da produtividade e determinar a taxa "natural" de desemprego (a que não produz aumento da inflação). Pouca gente séria acredita que exista uma medida precisa dessa "taxa natural", mas mesmo os descrentes sabem que essas coisas existem. Basta ver a inflação subir. O Banco Central estimou essa taxa "natural" em torno de 8%, mas a conta foi feita no início de 2008.

Para complicar, no Brasil nem temos medida nacional de desemprego -o IBGE pesquisa seis regiões metropolitanas. Ficam de fora regiões industriais importantes como o interior de São Paulo, de Minas, do Rio e do Sul. Os custos salariais da construção civil, que se expande em todo país, ficam incógnitos.

Mas nas medidas do IBGE é evidente o aumento real do salário médio. Há ainda evidências anedóticas, como empresários a se queixar de que não encontram mão de obra qualificada (ou têm de pagar mais). Porém, a taxa de desemprego anda pela casa dos 7%, mas caindo.

A informalidade também diminui. Entre 2002 e 2007, ficou em torno de 41%. Mas ainda anda na casa de 37% dos trabalhadores das metrópoles pesquisadas pelo IBGE (trabalho sem carteira ou por conta própria). Cerca de 18% dos trabalhadores ganham menos de um salário mínimo -36% no Recife, 30% em Salvador, 12,5% em São Paulo.

A taxa "natural" de desemprego pode mudar, assim como o PIB potencial. O país pode empregar e crescer mais com menos inflação, a depender do treinamento dos trabalhadores, da tecnologia nas empresas, da infraestrutura etc. Mas vivemos num mundo desconfortável em que há sinais de aumento excessivo de custos do trabalho, informalidade enorme, escassez de trabalhador qualificado, desemprego ainda alto e salários médios ainda baixos.

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