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7 de junho de 2010

CANDIDATOS, NÃO TEMAM, MOSTREM TUAS CARAS




Autor(es): Marco Antonio Rocha

O Estado de S. Paulo - 07/06/2010



Quanto mais avança a disputa pela Presidência da República, mais intensa é a curiosidade do tal de "mercado" sobre o que os candidatos realmente pensam da economia e da maneira de administrá-la.

Nosso colega do Rio de Janeiro Fernando Dantas fez há poucos dias uma tentativa válida de perscrutar o interior das cabeças de Serra e Dilma para colher algumas pepitas do pensamento vivo de ambos sobre o tema.

Tarefa nada fácil. No período que antecede as eleições, principalmente eleições majoritárias, o que o público assiste é a uma espécie de pantomima, como as da Commedia dell"Arte, que se desenvolveu principalmente na Itália e, depois, na França, a partir do século 15. Nesses espetáculos populares, os atores ? às vezes todos eles ? usavam máscaras representativas da figura que encarnavam no palco. Isso facilitava a vida do público, que não precisava valer-se da capacidade de interpretação do ator para saber de qual personagem se tratava, pois percebia, pela máscara, que estava diante do lobo, do urso, do palhaço, do larápio, do velho sovina, do agiota, etc. (aliás, diz a lenda que "personagem" vem de "per suonare" ? soar através da... máscara).

A pantomima eleitoral brasileira, principalmente com o advento da televisão, também nos oferece os mais estranhos personagens, cada qual com a "máscara" que acha que mais agrada ao eleitorado ou a que as pesquisas indicam como a mais conveniente, sem que se possa ver com nitidez a verdadeira cara da persona que soa através dela. A grande maioria desse elenco é de comediantes. Mas mesmo os que são para ser levados a sério precisam usar uma máscara daquilo que rende voto e ocultar aquilo em que realmente acreditam, mas derruba voto.

Como no momento nada dá mais Ibope político-eleitoral do que o nome de Lula, os dois candidatos principais, Serra e Dilma, envergam a máscara da continuidade: Dilma, a da continuidade absoluta, completa ("eu sou Lula amanhã..."); Serra, a da continuidade melhorada ("é preciso fazer melhor..."). Mas o que será que elas disfarçam?

Vamos acreditar que ambos estão nessa luta não por vaidade pessoal, que não pensam apenas em "chegar lá", levando a cupinchada para o poder e pretendendo ficar nele o maior tempo possível. Deixando de lado essa face bem humana de qualquer político (no mais das vezes, a verdadeira) e buscando a porção altruísta que ambos certamente têm, suponhamos que de fato pensam seriamente no futuro do Brasil e da sua população.

Do ponto de vista do "mercado", a mensagem de maior segurança que a candidata Dilma pode entregar é dizer que, durante pelo menos os dois primeiros anos do seu mandato, o presidente do Banco Central, o ministro da Fazenda e o ministro do Planejamento serão os mesmos que já estão aí, ou quem estes indicarem.

Isso asseguraria, de pronto, que ela não cederá às idiossincrasias ideológicas e manias fisiológicas do seu partido e cumprirá a lição de casa, governando pelo manual. E também evitaria que o mercado ? que já notou o mais do que raso conhecimento que ela exibe de economia e a sua fraca capacidade de argumentação e de liderança dentro do seu próprio séquito ? fique achando que os aloprados, que formam uma robusta e aguerrida tropa no PT, podem levá-la para rumos estranhos.

O titubeio da candidata é notório. Basta lembrar o episódio recente em que ela falou em "estender a terceira idade" e logo recuou, ao abordar, ou ser provocada, sobre os problemas que afligem a Previdência. Ela talvez saiba que o desafio previdenciário é gravíssimo, mas o assunto é um tabu incompatível com a máscara de "governar para o social" que ela tem de exibir.

Sobre Serra, não se duvida de que navega bem nos meandros da teoria econômica, dos modelos, das alavancas da macroeconomia. E sabe-se que já mostrou qualidades na administração da coisa pública. Sabe-se, também, que ele discorda de pontos centrais da política econômica do governo Lula. Portanto, quando ele fala em continuidade melhorada, vê-se logo o desejo de corrigir o rumo de coisas que ele acha erradas.

Mas o que pouco ou nada se sabe é da sua capacidade como formulador de estratégias econômicas de médio e de longo prazos e de novas políticas. Isso seria importante esclarecer, num país que está numa encruzilhada de onde pode seguir capitalizando a boa imagem que conquistou nos meios financeiros internacionais, principalmente por ter atravessado quase incólume as turbulências de 2008-2009, ou pode enredar de novo no cipoal do endividamento externo, da inflação e, sobretudo, da perplexidade gerencial, como já está parecendo.

Caberia a ele, portanto, criticar abertamente o que acha errado na política econômica em geral, na política cambial, na política de metas de inflação, nas de crédito e de juros, na de comércio externo, apontar as correções que julga necessárias e explicar como essas correções de rumo se coadunam com uma estratégia de desenvolvimento sustentado melhor do que a do modelo Lula-Dilma.

Tanto num caso quanto no outro, teriam ambos de abandonar as máscaras usadas para "dar Ibope". Mas o risco de exibir a própria cara seria compensado pelo fato de ela ser autêntica, portanto, permanente. E a escolha do eleitor seria também mais autêntica.

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