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1 de junho de 2010

BEM-VINDOS, MAS A CASA É NOSSA



Autor(es): Adriano Pires e Abel Holtz

O Estado de S. Paulo - 01/06/2010

Bem-vindos, mas a casa é nossa

Conta a lenda que desde o almirante Zhen He, que em seu navio de tecnologia avançada deu a volta ao mundo, os chineses estiveram no Brasil e conheceram suas riquezas. Contam até que o almirante levou em sua viagem de volta um galináceo para cantar e encantar seus governantes. É a lenda.

Agora estamos realmente assistindo a uma investida dos chineses por todo o mundo em desenvolvimento e subdesenvolvido, comprando terras para plantar alimentos, minas de ferro e outros metais, investindo em petróleo e refinarias para em seguida transportá-los para suas fronteiras, e emprestando aos ávidos interessados quantias astronômicas em dólares, tentando dar rentabilidade às suas gigantescas reservas em divisas, em vez de continuar aplicando em letras do Tesouro americano.

É fato que há pouco mais de 50 anos o país tinha um estágio social e de desenvolvimento muito aquém das suas potencialidades. Relembre-se que foi após o Grande Líder que, enfrentando resistências inclusive internas, o país veio determinadamente conquistando sua independência de toda ordem e hoje está capacitado para e aspira a liderar o desenvolvimento em todo o mundo. A China já é o segundo maior consumidor mundial de petróleo.

Atualmente, o país é citado em todo o mundo como um exemplo a seguir, dadas as suas enormes taxas de crescimento econômico. Já virou adjetivo a expressão "crescimento chinês". Educação e trabalho duro fizeram com que o país pudesse ser um dos maiores exportadores mundiais de bens e capitais. Muitos caracterizam a China como a fábrica e o mundo como o shopping. Mas pouco conhecemos da cultura chinesa e do povo chinês. Seus governantes se apresentam sempre taciturnos e focados nos objetivos e nas demandas. Sua língua é pouco difundida, apesar de hoje estar sendo escrutinada pelos jovens que antecipam a necessidade de se comunicarem com aqueles que deverão ter papel relevante nas lideranças mundiais.

Mas nessa investida que estamos presenciando das empresas chinesas em diferentes áreas da nossa economia ? apesar de aplaudida por muitos governantes e aqueles interessados na sua capacidade de investir ?, temos de resguardar os postos de trabalho para os brasileiros. Tem sido verificado que, ao mesmo tempo que oferecem generosa participação monetária aos países onde realizam investimentos, as empresas chinesas recrutam um enorme contingente de chineses e os colocam em postos-chave de todos os níveis das equipes nas empresas adquiridas com seus recursos financeiros, eliminando a presença de trabalhadores e técnicos locais.

A dificuldade de comunicação entre líderes e liderados, ao lado das diferenças culturais, é a justificativa dada pelos chineses para essa ação. Mas a realidade é que na maioria dos casos há uma necessidade de dar trabalho aos seus compatriotas, facilitando o dia a dia da empresa (todos se entendem) e baixando custos, porque a mão de obra chinesa é bem mais barata do que a local. Em recente projeto de uma siderúrgica no Rio de Janeiro, o desejo inicial era trazer 3 mil compatriotas para a sua construção. Postos de trabalho que seriam de brasileiros. Ao final, trouxeram 300 profissionais.

Agora, há a investida no setor elétrico via compra de participação na AES ? objetivando investimentos em energia renovável no mundo, segundo foi informado ?; a compra das transmissoras no Brasil antes em poder de empresas espanholas; a possível venda de equipamentos para Belo Monte; a parceria e o empréstimo de US$ 10 bilhões em troca da exportação de 200 mil barris/dia com a Petrobrás; e a compra de direitos de exploração de petróleo. Isso poderá trazer um contingente imensurável de expatriados para postos de trabalho que estão sendo ocupados hoje por especialistas e profissionais brasileiros.

Cabe ao governo, ao lado de criar condições para que os investimentos se materializem, garantir o emprego dos profissionais e operários brasileiros

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