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31 de maio de 2010

SENADO CONVOCA CELSO AMORIM PARA PRESTAR INFORMAÇÕES SOBRE ACORDO





O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim deverá comparecer ao Senado na próxima terça-feira para dar explicações sobre o acordo alcançado com o Irã e Turquia para troca de combustível nuclear com a Turquia sob a mediação do Brasil.

Segundo a "Agência Brasil", Amorim justificará a posição do Governo brasileiro em defesa do acordo, que tem o objetivo de superar, por meio de negociações, a crise gerada pelas dúvidas sobre as intenções do programa nuclear iraniano, sem sanções da comunidade internacional.

O ministro foi convocado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado, cujo presidente, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), manifestou sua preocupação pela aproximação do Brasil com o Irã, um país questionado pelos supostos fins militares de seu programa nuclear e por violações dos direitos humanos.

Segundo Azeredo, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tem um histórico pouco confiável e já violou acordos semelhantes ao assinado no dia 17 de maio, alcançado com mediação de Brasil e Turquia.

De acordo com a agência de notícias do Senado, depois de uma sugestão do senador João Tenório (PSDB-AL) de convocar o comparecimento de Amorim, o próprio ministro anunciou sua disposição a participar de um debate para esclarecer a posição brasileira.

O acordo aceito por Ahmadinejad prevê que as autoridades iranianas entreguem ao Governo turco 1,2 toneladas de urânio enriquecido a 3,5%, para recuperar um ano depois 120 quilogramas de combustível nuclear a 20%, a ser utilizado em seu reator científico.

O acordo foi alcançado durante o encontro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tiveram na semana passada com o líder do Irã.

Apesar do esforço diplomático, nos últimos dias, membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, principalmente os Estados Unidos, manifestaram dúvidas sobre o acordo e Washington chegou a assegurar que a iniciativa torna o mundo mais perigoso.

23 de maio de 2010

O REI DE PASÁRGADA

 Flávio Tavares

ZERO HORA - 23/05/10


O presidente Lula da Silva não sabia que aquilo era Pasárgada. Tampouco seu ministro de Relações Exteriores, ainda que saiba lidar com fantasias desde jovem, quando serviu à ditadura dirigindo a Embrafilme. Talvez nem o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, sério e estudioso, pois no fundo nenhum deles sabe em que se meteram nessa aventura em Pasárgada.

Aquele poema de Manuel Bandeira, no entanto, passou à realidade: "Vou-me embora para Pasárgada,/ lá sou amigo do rei./ Lá tenho a mulher que eu quero,/ na cama que escolherei".

Pasárgada não foi núcleo da utopia nem imaginário da felicidade, mas capital do Império Persa, sucedânea do que hoje é Teerã. De lá, o rei mandava e desmandava num território imenso, maior que o Irã atual, até extinguir-se como capital por volta de 560 antes de Cristo. Faz tanto tempo, que ninguém recorda que o Irã de hoje é a Pérsia de ontem, minimizada mas real.

Existem acordos que nascem para serem o oposto do que dizem ser. Em 1938, Hitler assinou o Acordo de Munich, comprometendo-se a respeitar as fronteiras da Europa, e o primeiro-ministro britânico Chamberlain voltou a Londres orgulhoso, exibindo a firma do chanceler do Reich: "A paz na Europa está assegurada", frisou. Para Hitler, no entanto, aquilo era apenas um pedaço de papel, daqueles que se rasgam e vão para o lixo, e todos sabem o que veio depois. Mais tarde, já iniciada a guerra, Hitler fez um pacto de não agressão com Stalin, firmado em Moscou pelos chanceleres Ribbentrop, da Alemanha, e Molotov, da União Soviética. No ano seguinte, de surpresa, Hitler invadiu a Rússia e a guerra tomou sua senda mais cruel e destrutiva.

Seria infantil profetizar que Mahmoud Ahmadinejad não cumprirá o acordo que assinou com os chefes de governo do Brasil e da Turquia. Mesmo se o cumprir, porém, persiste a possibilidade de o Irã enveredar rumo à bomba nuclear, pois o acordo não impede que os iranianos continuem os trabalhos de enriquecimento de urânio dentro do próprio país. O Irã transferirá à Turquia 1.200 quilos de urânio "enriquecido" a 3,5% (utilizável para gerar eletricidade) para receber, em troca, 120 quilos a 20%, destinados à medicina nuclear.

E o resto? Não há nenhum compromisso de Ahmadinejad quanto ao resto. E outra vez a Agência Internacional de Energia Atômica terá de voltar ao Irã com inspetores e o impasse continuará.

O estardalhaço com que o governo do Brasil festejou o acordo só engrandece os dotes de raposa de Ahmadinejad e o fortalece internamente, forjando a aparência de que o Irã não está só. Qual o interesse em prestigiar um regime fechado, atrasado, autoritário e truculento, onde as mulheres vivem submetidas a um ritual de quase-coisa na sociedade? Ou onde a fanática Guarda Revolucionária vigia a população inteira, crianças inclusive, e pode prender até por suspeita de ser suspeito??

Em 1982, a Argentina vivia sob sanguinária ditadura de direita e seu exército ocupou as ilhas Malvinas. Todos festejaram, até os presos políticos – combatia-se a imperialista Inglaterra, afinal. A Inglaterra reagiu, enviou a esquadra e os argentinos se renderam. A ditadura argentina desmoronou-se em seguida, consequência da rendição militar, e o país se redemocratizou. Se a Argentina houvesse ganho a guerra, a ditadura continuaria até hoje, militarmente em triunfo, mesmo com o horror dos 20 mil presos "desaparecidos".

Por que não pensar nisso antes de louvar o novo rei de Pasárgada?

IRÃ E O IMPÉRIO DECADENTE

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA

Há algum tempo, o establishment mundial recebeu com um misto de irritação e descrença a notícia de que o presidente Lula se dispunha a intermediar a questão do Irã.

Na semana passada a diplomacia brasileira alcançou um êxito histórico em Teerã ao lograr que o governo nacionalista islâmico do Irã aceitasse o acordo sobre a troca de urânio pouco enriquecido por urânio enriquecido a 20% nos mesmos termos que as grandes potências e a AIEA(agência atômica da ONU) haviam proposto há seis meses.

Não obstante, alegando que o acordo não assegura que o Irã não utilizará o restante do urânio em seu poder para se tornar potência nuclear, os EUA conseguiram convencer as demais grandes potências a levar ao Conselho de Segurança da ONU a proposta de novas sanções ao Irã. E adicionaram mais uma "razão": assim, evitam que seu aliado Israel bombardeie o Irã. Significa isso que o acordo de Teerã fracassou?

As razões para ignorar o acordo bem pensado e realizado não se sustentam. A recusa dos EUA de continuar a negociação a partir dele deixou mais uma vez claro que seu objetivo principal não é evitar que o Irã tenha a bomba, mas é desestabilizar seu governo.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, os EUA vêm procurando derrubar o governo nacionalista iraniano. Primeiro, porque o regime seria fundamentalista; depois, porque ameaçaria Israel.

Nesse sentido, suas ações não se limitaram ao "soft power" e à diplomacia, mas foram militares. Em 1981, financiaram uma guerra mortífera do Iraque de Saddam Hussein contra o Irã, que durou quase dez anos e terminou com a derrota da coligação americano-iraquiana.

Agora, depois de haver invadido e submetido seu antigo aliado, voltam- se de novo contra o regime dos aiatolás e de seu boquirroto e autoritário presidente, Mahmoud Ahmadinejad.


Mostram, assim, coerência em sua política imperial de controle político-militar do Oriente Médio. O fato de a China ter concordado em assinar o pedido de mais sanções significaria que não usará seu poder de veto no Conselho de Segurança? É possível, mas não é provável.

A China assinou o pedido para, neste momento, não aumentar seu contencioso com os EUA, que já é grande.

Por isso, é bem possível que o acordo de Teerã e as reações que está provocando levem os chineses, que não têm interesse em que os EUA e a Europa aumentem ainda mais seu poder no Oriente Médio, afinal a recusar seu voto às sanções.

Os EUA são um império em decadência que tenta ser imperial em uma fase da história mundial na qual os impérios não fazem mais sentido.

Os dois últimos grandes impérios foram o britânico e o soviético. Fracassaram por diferentes razões, mas principalmente porque hoje mesmo países mais atrasados são membros plenos da ONU e não aceitam a dominação imperial.

Não obstante, os EUA insistem em terem bases militares espalhadas em todo o mundo para "legitimar" a imposição de sua vontade. Sabemos, porém, que não é com armas, mas com bons argumentos e com concessões mútuas que haverá paz entre as nações.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), passa a escrever quinzenalmente neste espaço.

19 de maio de 2010

EUA IGNORAM ACORDO E PROPÕEM SANÇÕES AO IRÃ


O Estado de S. Paulo - 19/05/2010

EUA ignoram Brasil e Turquia e anunciam acordo para sanções ao Irã









Hillary elogia "esforço sincero" de Brasil e Turquia, mas defende resolução "forte" e diz ter apoio de China e Rússia no Conselho de Segurança da ONU

Um dia depois de Brasil e Turquia celebrarem um acordo com o Irã, os EUA apresentaram ontem uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que prevê sanções contra o regime iraniano por causa de seu programa nuclear. A medida tem apoio de todos os membros permanentes do conselho - EUA, Grã-Bretanha, China, Rússia e França, que têm poder de veto. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse "reconhecer os sinceros esforços" de brasileiros e turcos, mas afirmou que há necessidade de buscar uma resolução com punições
fortes". A ação dos americanos irritou o governo brasileiro. O chanceler Celso Amorim declarou que "ignorar o acordo (com o Irã) é desprezar a busca de uma solução pacífica e negociada".







Apesar do pacto obtido pela diplomacia brasileira e turca para a troca de urânio iraniano por combustível, Washington e seus aliados, incluindo China e Rússia, devem apresentar na ONU um projeto com duras punições para forçar Teerã a frear seu programa
Um dia depois de Brasil e Turquia celebrarem um acordo de troca de urânio com o Irã, os EUA apresentaram ontem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU que prevê sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear. A medida tem o apoio de todos os membros permanentes do CS - EUA, Grã-Bretanha, China, Rússia e França - que teriam poder de veto. A resolução é um golpe contra a diplomacia brasileira.

"Nós concordamos com uma proposta de fortes sanções, com cooperação da Rússia e da China", afirmou Hillary em audiência no Senado. "Embora reconheçamos os sinceros esforços do Brasil e da Turquia, o grupo mediador vai liderar a comunidade internacional na busca de uma resolução com sanções fortes."

As sanções concentram-se na Guarda Revolucionária e têm como objetivo restringir atividades militares, financeiras e logísticas que teriam ligação com o programa nuclear (mais informações nesta página). A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, afirmou que a resolução dá "mais força" às sanções existentes contra o país - já foram aprovadas três rodadas de punições - e acrescenta medidas "duras" para pressionar o governo iraniano a provar que seu programa nuclear tem fins pacíficos e não visa a produzir armas. O governo americano espera votar as sanções no CS "o mais rápido possível, em questão de semanas".

Rússia e China, que têm um grande volume de comércio com o Irã e por isso resistiam às sanções, uniram-se aos EUA, ignorando o acordo anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Teerã. Mas os EUA tiveram de concordar com sanções menos rígidas, principalmente no que se refere a instituições financeiras e energia, para garantir o apoio de russos e chineses.
Pelo acordo mediado pelo Brasil, o Irã se compromete a enviar 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a até 5% para o a Turquia, em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% - grau suficiente para produção de eletricidade.

O ministro de Relações Exteriores Celso Amorim reagiu com irritação ao anúncio dos EUA e prometeu denunciar Washington e seus aliados ao Conselho de Segurança por defender sanções após a aceitação de uma proposta que eles mesmos apresentaram (mais informações na página A13). Em outubro, o grupo negociador oferecera ao Irã uma proposta parecida.

O porta-voz do Departamento de Estado, P. J. Crowley, disse que o acordo não resolvia o problema principal, que é o fato de o Irã ter declarado que continuaria a enriquecer urânio a 20%. "As declarações no fim de semana na verdade foram a gota d"água, o fato de o Irã dizer que, independentemente do acordo, continuaria a enriquecer urânio", disse Crowley. "Apreciamos esforços do Brasil e Turquia, mas a pergunta é: há substância nesse pedaço de papel?"

Segundo os EUA, Hillary ligou na segunda-feira à tarde para Amorim, escutou atentamente o relato dele e, depois, o informou sobre as sanções que seriam anunciadas ontem de manhã.
Silêncio. À noite, questionado pelo Estado ao fim de uma cerimônia em que foi homenageado, em Madri, Lula justificou seu silêncio em relação à questão: "Eu quero deixar maturar as notícias. Quero ver tudo o que sai para ver o que vai acontecer."

Na falta de Lula, o assessor especial para assuntos externos do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, foi o porta-voz do governo em Madri. "Se os EUA optarem pelas sanções, eles vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política. Cabe aos EUA decidirem se querem ou não um new deal com o Irã", disse, ainda antes do anúncio de Hillary

Mais cedo, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, já havia expressado seu "reconhecimento e pleno apoio da França ao presidente Lula", mas fez ponderações sobre o acordo. "Ele deve ser acompanhado, logicamente, do fim do enriquecimento até 20%", dizia o texto. Nos bastidores da 6.ª Cúpula União Europeia-América Latina, Brasil e Turquia tentam obter a inclusão no grupo mediador. / COLABOROU ANDREI NETTO, DE MADRI

PONTOS-CHAVE

Eletricidade

Para o funcionamento de usinas elétricas nucleares, o porcentual de enriquecimento
é de 3% a 5% .A etapa é considerada a mais difícil e demorada

Pesquisa científica

O urânio enriquecido a 20% é usado como combustível de reatores de pesquisas e para tratamentos médicos. Serve ainda como combustível para submarinos a propulsão nuclear

Armas nucleares
Enriquecido a cerca de 90%, o urânio é usado em bombas atômicas. Ele ainda pode ser transformado em plutônio, que substitui o urânio numa bomba

Estoque iraniano

O Irã tem 2.300 kg de urânio enriquecido a 3,5%. O acordo prevê o envio de 1.200 kg para a Turquia, deixando 1.100 kg no país. Para uma bomba, são usados entre 1.000 e 1.700 kg






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BRASIL DESAFIA OS EUA PARA DEFENDER IRÂ

Autor(es): Isabel Fleck

Correio Braziliense - 19/05/2010

Brasil desafia os EUA

Queda de braço


Um dia depois de Brasil e Turquia fecharem acordo com o Irã para a troca de urânio enriquecido, Estados Unidos levam projeto de sanções ao Conselho de Segurança. Embaixadora brasileira abandona a reunião


No dia seguinte ao anúncio do acordo conseguido pelos governos brasileiro e turco sobre a troca de urânio iraniano, Estados Unidos e Brasil ensaiavam ontem uma queda de braço no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Washington ignorou o avanço obtido e convocou uma reunião de emergência para discutir o rascunho de um projeto estabelecendo mais uma rodada de sanções ao Irã. O texto tem 10 páginas e, segundo a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, teria sido aceito pela China e pela Rússia. Ele prevê restrições até ao Banco Central do Irã.

A representante do Brasil, que ocupa uma cadeira não permanente no conselho, abandonou a reunião. “O Brasil não vai participar neste momento, porque sentimos que existe uma nova situação. Houve um acordo muito importante”, disse a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Na mesma hora, em Brasília, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmava à imprensa que “não colocaram na balança as coisas que o Lula falou”. O chanceler brasileiro negou, no entanto, que o acordo fechado pelos três países tenha sido “ignorado” pelo grupo “cinco mais um” (EUA, França, Reino Unido(1), Rússia, China e Alemanha). Sobre as sanções, o ministro afirmou que, se for apresentada uma resolução com esse teor, “haverá uma reação” do Brasil.

Amorim e o colega turco, Ahmet Davutoglu, estão redigindo uma carta para enviar aos membros do Conselho de Segurança, na qual ressaltarão que a base do acordo assinado domingo é a própria proposta apresentada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no ano passado. “É o acordo que eles propuseram”. Para o chanceler, não há razões para duvidar de que o programa nuclear do Irã tenha objetivos civis, embora “às vezes erremos ao julgar as intenções do outro”. “Até os namorados às vezes desconfiam”, comparou.

Jogo duro
O rascunho levado pelos EUA ao conselho propõe que os países-membros proíbam a abertura de novas agências ou escritórios de representação de bancos iranianos que estejam “vinculados a atividades de proliferação nuclear”. Também exige vigilância sobre as transações bancárias, inclusive do Banco Central do Irã, para “evitar que contribuam para a proliferação de atividades nucleares sensíveis ou para o desenvolvimento de sistemas para o lançamento de armas atômicas”.

O texto prevê inspeções em navios “suspeitos” de transportar cargas relacionadas ao programa nuclear iraniano. Porém, segundo a agência chinesa Xinhua, que cita “fontes diplomáticas”, o rascunho “reflete uma estratégia de duas vias” e abre uma brecha para negociações ao “apoiar e encorajar os esforços diplomáticos”.

Mais cedo, na Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, Hillary anunciara um acordo sobre as sanções com China e Rússia. Segundo a secretária, seria uma “resposta convincente” aos esforços realizados no Irã durante os últimos dias. “Ainda há uma série de perguntas sem resposta sobre o anúncio que veio de Teerã. (…) O grupo cinco mais um e a União Europeia estão reunindo a comunidade internacional em nome de uma resolução com sanções fortes, que envie uma mensagem inequívoca sobre o que se espera do Irã.”

O assessor do presidente Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse em Madri que a decisão de insistir nas punições colocaria os EUA em má situação. “Se optarem pela sanção, vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política”, afirmou. Ele ainda sugeriu que o “normal e desejável” seria que Brasil e Turquia se reunissem com o grupo “cinco mais um”.

1 - Embaixador faz ressalvas
Em Brasília, o embaixador do Reino Unido, Alan Charlton, disse que o acordo entre Irã, Brasil e Turquia é “bem-vindo”, mas o caminho até uma solução de fato “ainda é bastante longo”. “O próximo passo deve ser o contato do Irã com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). E tem vários outros pontos a serem discutidos; por exemplo, nós acreditamos que o Irã continua a enriquecer urânio”, afirmou. Charlton lembrou que a ideia da troca foi da própria AIEA, para “dar mais confiança para a comunidade internacional”. Ele, no entanto, destacou o papel desempenhado pelos dois países em desenvolvimento. “A Turquia e o Brasil são parceiros muito importantes da Europa e dos Estados Unidos, e há um papel para cada país nessas questões”. O embaixador ainda garantiu que o Reino Unido “sempre apoiou a ideia de o Brasil se tornar membro permanente do Conselho de Segurança”, e que isso não mudará com o novo governo britânico.

O grupo ‘cinco mais um’ e a União Europeia estão reunindo a comunidade internacional em nome de uma resolução com sanções fortes”

Hillary Clinton, secretária de Estado norte-americana


O Brasil não vai participar neste momento, porque sentimos que existe uma nova situação. Houve um acordo muito importante”

Maria Luiza Ribeiro Viotti, representante do Brasil na ONU


Veja os principais pontos do projeto de resolução apresentado pelos EUA


Teerã tem pressa

O governo do Irã declarou ontem que vai informar a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre a proposta firmada com o Brasil e a Turquia “por escrito, pelos canais habituais”. O regime de Teerã, entretanto, pediu que EUA, França, Rússia e a própria AIEA, que compõem o Grupo de Viena, “apresentem rapidamente” disponibilidade para aprovar a troca do urânio iraniano via Turquia. “Uma vez assinado, o acordo vai preparar terreno para uma cooperação nuclear mais ampla e mudará o clima entre o Irã e as grandes potências”, disse o porta-voz da chancelaria iraniana, Ramin Mehmanparast.

No Irã, a receptividade ao acordo também foi maior do que se esperava. O presidente do Majilis (Parlamento), Ali Larijani, que em outubro passado foi contrário à proposta do grupo de Viena, apoiou o texto anunciado na segunda-feira, que prevê a troca de 1.200kg de urânio levemente enriquecido por 120kg de combustível a 20%. “É necessário que as posições de todos se aproximem e que os países se comprometam em uma só voz com esse caminho justo”, declarou Larijani, um político muito próximo ao líder religioso supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Classificado como um “conservador pragmático”, ele já foi o chefe dos negociadores iranianos para a questão nuclear.

De acordo com a agência iraniana Irna, 234 dos 290 deputados do Majlis assinaram um comunicado de apoio ao acordo entre Irã, Brasil e Turquia. O gesto confirma que mesmo a oposição reformista, que contesta a legitimidade do presidente Mahmud Ahmadinejad, cerra fileiras em defesa do que considera um direito do país. “A atividade nuclear pacífica é considerada um patrimônio nacional, e cabe a todo o povo iraniano protegê-la”, diz o texto. Os parlamentares apresentam o acordo de Teerã como “base positiva” para o diálogo, e acusa a “arrogância global” — termo usado no Irã para referir-se às grandes potências em geral, e aos EUA em particular — de tentar “desviar a nação iraniana de seu caminho reto”.







18 de maio de 2010

O ACORDODO BRASIL COM O IRÃ

Em seguida a euforia brasileira, celebrando o acordo sobre o enriquecimento de urânio com o Irã, comemorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma "vitória da diplomacia", facial é verificar que o acordo não altera a questão central: o Irã continuará enriquecendo urânio dentro do seu território. Por isso, está sendo visto com desconfiança pelos Estados Unidos e países europeus.
As potências ocidentais já deram a sua reação aos esforços brasileiros e turcos: apesar do acordo, continuarão mantendo a pressão por novas sanções contra o Irã,
Acordo serviu apenas para dar um novo dircurso a Ahmadinejad que passou a defender uma nova ordem mundial e a dizer que o Conselho de Segurança da ONU já não reflete mais a realidade do pós-guerra, repetindo o monocórdio discurso do presidente Lula. Ai é fácil perceber que o acordo encobre uma aliança Brasil/Irã que se uniram para defender uma “nova ordem mundial”.
A Lula, interessa que Ahmadinejad proclame aos quatro cantos que o brasileiro, sim, é quem sabe negociar. Ao iraniano, interessa o endosso do brasileiro a seu programa nuclear “pacífico”. Até porque, dado o acordo, o Irã continua livre para fazer o que bem entende.
No plano internacional, isso pode não render nada para Lula, mas no plano interno, pode servir para enganar os velhos incautos e inocentes úteis, que até acreditam no conto de que o presidente brasileiro vai ser agraciado com o prêmio Nobel da Paz. Quando aqui no Brasil descobrirem que a montanha pariu um mosquito, e Ahmadinejad não cumprir nada do que assinou, já será tarde, mas pode ser que nosso grande guia tenha conseguido eleger sua candidata.
Lula lembra Galtieri e os generais argentinos, quando tentaram prorrogar a ditadura e inventaram a guerra das Malvinas. Lembram, os argentinos cutucaram a onça com a vara curta. Lula cutucou um bando de onças.

Alguns dizem que Irã usa o Brasil e a Turquia para ganhar tempo. A afirmação é do professor iraniano-americano Abbas Milani, diretor do Centro de Estudos Iranianos da Universidade Stanford e do Instituto Hoover e considerado um dos maiores especialistas em Irã nos Estados Unidos. Na sua avaliação, o acordo com turcos e brasileiros dificultará a aprovação de novas sanções contra o regime de Teerã no Conselho de Segurança da ONU.
Esse é um dos resultados da desastrada encenação protagonizada por Lula.
Estados Unidos e países europeus, principalmente os que detém assento no Conselho de Segurança da ONU continuarão defendendo sanções ao Irã, mas aumentou o número de países que deverão resistir, e a aplicação de punições se tornou mais difícil. Isso aumenta a possibilidade de uma intervenção militar de Israel.