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3 de outubro de 2009

MICHELETTI AFIRMA: ZELAYA É UM BONECO DE CHÁVEZ

ENTREVISTA CONCEDIDA A THAÍS OYAMA


VEJA



O presidente de Honduras, Roberto Micheletti, concedeu entrevista à repórter Thaís Oyama, publicada pela Revista Veja dessa semana.
Deportar Manuel Zelaya para a Costa Rica “foi um erro”. Disse que o presidente deposto deveria ter sido “levado aos tribunais”. “Eu não tenho responsabilidade por essa decisão”, declarou Micheletti. “Só fui informado do procedimento à tarde”.Os militares detiveram Zelaya de madrugada, ainda metido em pijamas. Cumpriam determinação da Supremo Corte de Justiça de Honduras.
Embora tente eximir-se de responsabilidade, Micheletti justificou a expatriação:
- “Decidiram tirá-lo do país para evitar um derramamento de sangue”.
A deposição de Zelaya tem amparo na Constituição de Honduras. Violando a constituição hondurenha, Zelaya tramara a realização de um plebiscito reeleitoral com o objetivo de perpetuar-se na presidência, seguindo o modelo criado por Chávez. Isso é expressamente vedado pela Constituição. Daí a ordem judicial para que fosse apeado do poder, também prevista no texto constitucional.
Micheletti, presidia o Congresso. De acordo com a constituição ele deveria assumir a presidência, obedecendo a ordem de sucessão prevista na legislação de Honduras. Micheletti recusa o epíteto de “gopista”. Disse que haverá eleições presidenciais em novembro. Em janeiro, arruma as gavetas e se retira. Por isso, afirma:
- “Não pode ser um golpista nem um ditador um homem que assumiu a Presidência obedecendo à Constituição do seu país..."
Diz que a crise hondurenha foi criada pelo presidente da Venezuela:- “Zelaya é um boneco de [Hugo] Chávez”.
E não livrou a cara do Brasil. Por quê?
“Porque o Brasil, por meio de seu presidente, permitiu que Zelaya convocasse à insurreição e à violência da varanda da sua embaixada.
No início da entrevista que concedeu à editora Thaís Oyama, elogiou o presidente Lula, o "encantador povo brasileiro" e reiterou que, ao contrário do que havia sugerido, não mais ordenará nenhuma medida contra a Embaixada do Brasil, mesmo depois de terça-feira, quando se esgota o prazo dado por seu governo para que o país defina o status do "hóspede" Manuel Zelaya.
Ao longo da conversa, porém, Micheletti foi dando vazão à contundência, até deixar clara a sua opinião sobre a quem cabe a culpa pela situação em que se meteu Honduras: o presidente venezuelano Hugo Chávez e, também, o governo brasileiro.


Veja abaixo a entrevista de Micheletti a Thaís Oyama:
A maneira como Manuel Zelaya foi expelido do país – tirado de casa, de pijamas e no meio da madrugada – não foi um erro, já que ajudou a reforçar a ideia de que ele foi vítima de um golpe?
Sim, foi um erro. Mas temos de considerar que as pessoas que foram cumprir essa tarefa estavam com medo – Zelaya tem seguidores e poderia haver um enfrentamento. Eu não tenho responsabilidade por essa decisão. Só fui informado do procedimento à tarde. Mas o que me contaram é que fizeram isso por temor de que ocorresse um conflito.
Mas quem deu a ordem?
A Suprema Corte de Justiça. E o procedimento foi legal.
Incluindo a retirada dele do país? Por que não o prenderam?
Eles (os militares encarregados da tarefa) deveriam tê-lo levado aos tribunais, mas decidiram tirá-lo do país para evitar um derramamento de sangue. Por isso, decidiram levá-lo à Costa Rica. Não haveria uma prisão segura para ele aqui.
O senhor conhece Zelaya muito bem. Como o descreveria?
É uma pessoa que toma decisões impulsivas. Na dificuldade, tem serenidade para aguentar tudo, mas depois planeja a vingança. É um homem que não se deixa decifrar: a palavra dele não dura meia hora. Zelaya nunca cumpriu com sua palavra.
Ele foi eleito pelo mesmo partido que o senhor, o Partido Liberal, mas, no cargo, adotou práticas e discurso de esquerda. Por quê?
Porque se cercou de comunistas de boteco, gente que não faz mais do que falar e falar. Eles o rodearam e o foram convencendo de que dessa forma iria perpetuar-se no poder. Isso nos motivou a que nos preparássemos para defender o país desse comunismo versão século XXI – uma invenção de um louco da América do Sul.
O senhor se refere a Hugo Chávez?
Sim, Zelaya é um boneco de Chávez, que o insuflou com ideias de grandeza, que o fez acreditar que era uma espécie de Bolívar (Simon Bolívar, líder revolucionário venezuelano) ou Francisco Morazán (militar e herói hondurenho). E que também lhe deu dinheiro.
Acredita que Chávez financia Zelaya?
Infelizmente não com o dinheiro dele, mas com o dinheiro do povo da Venezuela.
Qual é o plano de Hugo Chávez para a América Latina?
Fazer um novo império: o império de Hugo Chávez. O homem está vertendo o dinheiro de seu povo em todos os lugares, a fim de comprar apoio, consciências. É um ególatra, um megalomaníaco. Vêm dele todas as dificuldades que estamos passando agora.
O senhor acredita na existência de uma relação dele com o narcotráfico?
Nos últimos oito meses do governo de Zelaya, aqui neste país pousaram dezoito aviões clandestinos com registro venezuelano – todos trazendo drogas ou dólares (Honduras é uma das principais pontes do tráfico de drogas da América Latina para os Estados Unidos). Alguns desses aviões já foram encontrados queimados – os tripulantes retiram a droga das aeronaves e depois ateiam fogo a elas para não deixar pistas. Outros, nós conseguimos capturar. Já nestes três meses em que estamos aqui, apareceram somente dois desses aviões – um nós capturamos e o outro encontramos já queimado (a assessora o corrige, lembrando que recentemente a polícia localizou mais um avião venezuelano queimado). Ah, sim, foram três. Você vê: com a volta de Zelaya, os aviões já começaram a aparecer de novo.
O assessor para assuntos internacionais de Lula, Marco Aurélio Garcia, declarou que "o governo golpista de Honduras é feito de mentirosos". O senhor o conhece?
Não o conheço, mas quero dizer a Marco Aurélio Garcia que tenho 29 anos como congressista e ninguém nunca, nunca disse de Roberto Micheletti que era corrupto ou mentiroso. Nunca! Diga a ele que jamais minto e que posso afirmar no momento que quiser que é ele quem está mentindo, porque aceitou que havíamos queimado a embaixada e lançado gases, que estávamos envenenando as pessoas e instalando aparelhos israelenses lá para enlouquecê-las. Colocou o estado de Israel no meio disso tudo! Outro senhor, esse falastrão do Hugo Chávez, disse que Israel tinha sido o único país que nos havia reconhecido. Não é verdade. Nenhum país do mundo nos reconheceu, mas nos manteremos firmes, com fé em Deus que tudo vai sair bem.
E o que o senhor tem a dizer sobre o segundo adjetivo: "golpista"?
Eu sou presidente do Congresso Nacional e, por isso, obedecendo à Constituição de Honduras, fui nomeado presidente da República por seis meses, na ausência desse senhor que cometeu delitos contra o país, incluindo traição à pátria, além de atos de corrupção que deixam pasmo qualquer um. A mim me cabem seis meses de governo, durante os quais preciso garantir que as eleições aconteçam. Essas eleições não foram programadas pelo meu governo. Estão programadas desde 2008. E o que eu vou fazer é entregar o poder no dia 27 de janeiro de 2010 ao candidato vitorioso, porque assim ordenam que eu faça a lei eleitoral e a Constituição da República. Não pode ser um golpista nem um ditador um homem que assumiu a Presidência obedecendo à Constituição do seu país e que vai embora para casa no dia 27 de janeiro porque assim o determina a lei.
Como funciona hoje o poder em Honduras? Diz-se que as Forças Armadas mandam em tudo e que o senhor obedece.
Isso é mais uma mentira do seu amigo, o senhor Garcia!
Não, não foi ele que disse isso.
Ah, bom, mas quero que diga a ele: este país é constituído por três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, e os três somos civis. No Executivo manda Roberto Micheletti – e seus ministros. No Legislativo manda o senhor advogado José Alfredo Saavedra, que é o presidente do Congresso. Na Suprema Corte de Justiça, mandam Jorge Avilés e seus catorze magistrados. São os três poderes do estado, fora o Supremo Tribunal Eleitoral, que também é uma entidade independente dos poderes do estado. Aqui, as Forças Armadas só cumprem com sua obrigação constitucional.
Fechar TV, rádio, decretar estado de exceção são coisas que remetem à velha e infeliz tradição de golpismo. Por que o senhor achou necessário tomar essas medidas?
Quer saber por quê? Porque o Brasil, por meio de seu presidente, permitiu que Zelaya convocasse à insurreição e à violência da varanda da sua embaixada. Porque o senhor Lula da Silva não teve a cortesia de chamar esse senhor e dizer a ele: "Pare de fazer isso porque você está prejudicando a população hondurenha". Essa é a resposta. Depois, a lei me ordena que proteja a vida dos cidadãos hondurenhos. A determinação que tomei foi para evitar derramamento de sangue.
O Exército lançou algum tipo de gás dentro da embaixada brasileira?
Essa é uma acusação patética, mais um teatro de Zelaya. Mandamos peritos, médicos para lá, não houve nada. Nada.
Mas um funcionário brasileiro disse ter sentido cheiro de gás.
O que me informaram foi que a embaixada tem três banheiros e estava naquela altura com 160 ou 180 pessoas. Estava com os dutos totalmente cheios, e esses dutos produzem gases. Uns dizem que foi isso. Dizem outros que o que houve foi uma falsidade completa. Por que os vizinhos não sentiram nada? Os jornalistas perguntaram aos vizinhos do lado direito, aos do lado esquerdo e aos da frente da embaixada e ninguém sentiu nada.
O senhor parece bem-disposto para alguém que está à frente de uma crise que já dura três meses.
Sabe por quê? Porque Deus está comigo sempre. Não sou católico de passar na igreja todos os dias, mas rezo sempre e carrego o meu rosário quando vou enfrentar situações difíceis – peço a Deus que me ajude a enfrentar as coisas, porque ele sabe que o meu coração é limpo. Encaro a Presidência interina como uma missão que me foi confiada pelo meu país. Eu era muito feliz como presidente do Congresso

22 de setembro de 2009

ZELAYA BUSCA ABRIGO NA MISSÃO BRASILEIRA

O Estado de S. Paulo - 22/09/2009

Zelaya retorna a Honduras e abriga-se na embaixada brasileira

O presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, deposto e expulso do país por militares em 28 de junho, retornou ontem secretamente a Tegucigalpa e refugiou-se na Embaixada do Brasil. A informação, inicialmente desmentida pelo governo de facto liderado por Roberto Micheletti, foi confirmada pelo chanceler brasileiro, Celso Amorim
Zelaya - que entrou em rota de colisão com os militares, o Congresso e o Judiciário por causa de sua insistência em promover mudanças na Constituição e de sua proximidade com o presidente venezuelano, Hugo Chávez - evitou dar detalhes sobre como conseguiu retornar clandestinamente a Honduras, mas, segundo fontes próximas a ele, o presidente deposto atravessou a fronteira com a Nicarágua pelas montanhas. Nos últimos dias, Zelaya vinha coordenando a ofensiva diplomática para retomar o poder de um hotel localizado na cidade nicaraguense de Ocotal, perto da fronteira com Honduras.
Em julho, ele chegou a ultrapassar poucos metros a linha que separa os dois países, mas recuou diante da ameaça do governo de facto de prendê-lo. Antes, havia tentado voltar a Honduras em um avião venezuelano, mas os militares bloquearam a pista do aeroporto de Tegucigalpa para evitar o pouso.
Zelaya é acusado de violar a Constituição hondurenha ao tentar mudá-la. O governo de Micheletti também listou uma série de irregularidades fiscais e fraudes financeiras supostamente cometidas por Zelaya.
"Estou aqui para desempenhar o mandato para o qual o povo me escolheu nas urnas e reconstruir a democracia", declarou Zelaya a jornalistas já na representação brasileira. Ele disse que ninguém voltará a tirá-lo de Honduras. O mandato constitucional de Zelaya, de quatro anos, terminaria em janeiro de 2010. Ele seria substituído pelo vencedor da eleição de novembro. Segundo seus opositores, a mudança na Constituição pretendida pelo presidente deposto tinha como objetivo permitir que ele se candidatasse para um novo período presidencial. Zelaya nega.
"No momento em que tomarmos conhecimento de que ele entrou no país, levaremos adiante sua prisão", afirmou Micheletti, antes de exigir que o Brasil entregue Zelaya (mais informações na pág. 21). Micheletti decretou ontem toque de recolher entre 16 e 7 horas e ordenou o fechamento dos aeroportos.
O governo de Micheletti é considerado ilegítimo por praticamente todos os países do mundo. Os EUA, a União Europeia e entidades internacionais congelaram, desde o golpe, cerca de US$ 300 milhões da ajuda essencial para que Honduras equilibre seu orçamento. A comunidade internacional exige a devolução do poder a Zelaya e adverte que não aceitará o resultado das eleições presidenciais de novembro, caso elas sejam conduzidas pelo governo de facto. Micheletti e apoiadores rejeitam qualquer acordo político que implique devolver o poder a Zelaya. O líder deposto, por seu lado, disse rejeitar o chamado Acordo de San José, apresentado pelo presidente costa-riquenho, Oscar Arias, que prevê a volta de Zelaya à presidência, mas com poderes limitados. Centenas de partidários do líder deposto passaram a se concentrar diante da embaixada.
CRONOLOGIA
28 de junho - Militares depõem Zelaya; Micheletti assume
29 de junho - Comunidade internacional condena golpe; sanções começam a ser impostas 5 de julho - Bloqueio na pista do aeroporto impede avião de Zelaya de pousar em Tegucigalpa
7 de julho - Presidente de Costa Rica tenta mediar a crise
24 de julho - Zelaya pisa em solo hondurenho, mas volta em seguida à Nicarágua
31 de agosto - Início da campanha presidencial

ZELAYA VOLTA E SE REFUIGIA NA EMBAIXADA BRASILEIRA

Orlando Sierra/France Presse

Folha de S. Paulo - 22/09/2009

APÓS 85 DIAS, ZELAYA REGRESSA A HONDURAS

Presidente deposto consegue entrar clandestinamente no país e se refugia na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa

Governo golpista decreta toque de recolher e pede a Brasil que entregue político à Justiça para que ele possa ser submetido a processo

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

Oitenta e cinco dias depois de ter sido preso e expulso de Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya voltou clandestinamente ontem a Tegucigalpa, onde se refugiou na embaixada brasileira. Com a notícia, alguns milhares de simpatizantes saíram às ruas da capital, onde entraram em confronto com a polícia. Mais tarde, o governo interino decretou toque de recolher e exortou o Brasil a entregar Zelaya às "autoridades competentes".
"Viajei durante 15 horas, superando muitos obstáculos porque havia bloqueios, muita perseguição. Graças ao presidente Lula, temos proteção na Embaixada do Brasil", disse Zelaya, que antes tentara por duas vezes, sem sucesso, regressar a Honduras, em entrevista ao canal espanhol da CNN.
Segundo a Folha apurou, a chegada de Zelaya ocorreu sem aviso prévio. Pela manhã, a sua mulher, Xiomara Castro, chegou à representação brasileira acompanhada de uma deputada. Ao único diplomata brasileiro em Honduras explicou que seu marido estava do lado de fora e queria se refugiar ali. A entrada do presidente deposto só foi autorizada após consulta ao Itamaraty.
Ao entrar no prédio da embaixada, Zelaya disse querer ficar sob a proteção do Brasil enquanto tenta criar um "diálogo nacional de reconciliação".
O presidente deposto preferiu ficar na embaixada em vez de ir à residência oficial. Ele foi alojado no escritório do embaixador, que conta com um banheiro privado.A chegada de Zelaya a Tegucigalpa foi noticiada primeiro pelo canal venezuelano Telesur, controlado pelo governo Hugo Chávez, o principal aliado do presidente deposto. A informação inicial de que ele estava na representação da ONU levou manifestantes e policiais ao local, provocando pequenos confrontos.
Minutos depois do anúncio, o próprio Chávez apareceu na Telesur conversando com Zelaya por telefone. Demonstrando conhecimento prévio dos planos do aliado, disse que ele viajou "durante dois dias por terra, cruzando montanhas, rios, arriscando a sua vida".
Informado de que Zelaya não se refugiara no escritório da ONU, Micheletti chegou a dizer, em entrevista, que o deposto não estava em Honduras, mas "tranquilo numa suíte de um hotel na Nicarágua [país onde vivia desde a deposição]".
Com a nova informação, logo confirmada, de que Zelaya estava na embaixada brasileira, o governo golpista decretou toque de recolher das 16h locais de ontem até as 7h de hoje com o objetivo de "conservar a calma" e ordenou o fechamento, a partir de hoje, dos quatro aeroportos internacionais do país.
Ao mesmo tempo, alguns milhares de simpatizantes se reuniram nas imediações da embaixada brasileira. Zelaya os saudou, pedindo "calma".
A embaixada brasileira está instalada numa acanhada casa residencial adaptada de dois pisos no bairro Colônia Palmira, onde também funciona o setor consular. Normalmente, conta com apenas dois diplomatas, mas atualmente não há embaixador, já que Brasília não reconhece o governo golpista.
Ao contrário da fortificada embaixada americana, a poucas quadras dali, a segurança da representação brasileira é bastante precária: dispõe apenas de um segurança particular.
Em declarações ao site em espanhol da BBC, Zelaya disse que quer "iniciar um processo de aproximação" e que estaria disposto a se reunir com Micheletti. Ele pediu às Forças Armadas que "apontem seu rifle contra os inimigos do povo, e não contra o povo".
No final da tarde, Micheletti fez um pronunciamento dizendo que a presença de Zelaya "não muda a nossa realidade" e exortou o Brasil a entregá-lo às "autoridades competentes" para que seja submetido "a um devido processo".
O governo interino, que tem o apoio de todos os Poderes, nega que tenha dado um golpe de Estado e acusa Zelaya de ter atuado ilegalmente ao tentar promover uma reforma constitucional para introduzir a reeleição presidencial. Ele foi deposto em 28 de junho, dia em que planejava fazer uma votação sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte.

BRASIL ABRE PORTAS PARA ZELAYA TEN TAR RETOMAR PODER EM HONDURAS

Marília Martins e Gilberto Scofield Jr.
O Globo - 22/09/2009

Brasil abre as portas a Zelaya


Presidente deposto volta a Honduras, recebe abrigo na embaixada brasileira e quer reassumir
Depois de quase três meses no exílio, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, voltou ontem inesperadamente para seu país e, ameaçado de prisão pelo governo golpista, buscou abrigo na embaixada brasileira em Tegucigalpa. O retorno pegou de surpresa o presidente interino, Roberto Micheletti, que chegou a negar a presença de Zelaya no país e afirmar que tudo não passava de “terrorismo midiático”. Depois de uma série de boatos sobre o seu paradeiro, Zelaya apareceu de tarde na Embaixada do Brasil e, agradecendo o apoio do governo Lula, anunciou que usaria a representação brasileira como base para negociar sua volta ao poder. Micheletti imediatamente decretou toque de recolher no país, fechou todos os aeroportos e pediu que o Brasil entregasse Zelaya às autoridades locais.
— Minha presença aqui é para desempenhar o mandato que o povo me deu nas urnas eleitorais, para reconstruir a democracia — afirmou Zelaya, dizendo estar disposto a dialogar com o governo interino, enquanto milhares de simpatizantes se aglomeravam em frente à embaixada brasileira e helicópteros do governo sobrevoavam o local.
Obrigado por militares a deixar o país em 28 de junho, de pijamas, com uma arma na cabeça, Zelaya, com seu tradicional chapéu de vaqueiro, convocou a população a viajar à capital para o “proteger e dar cobertura”. A Chancelaria do governo golpista protestou contra ingerência, considerando “inaceitável a conduta de tolerância do Brasil” por permitir a convocação de dentro da embaixada, e responsabilizou Brasília por possíveis desdobramentos violentos.
“Tal ingerência em assuntos internos é condenável”, disse a chancelaria hondurenha em nota.
Viagem de Zelaya durou 15 horas
Parte da população ignorou o toque de recolher — marcado para começar às 16h de ontem e terminar às 18h de hoje — e permaneceu em frente à embaixada em apoio a ao presidente deposto. O sindicato de professores, também a favor de Zelaya, anunciou que os 60 mil docentes do país entrariam em greve hoje por tempo indeterminado.
A misteriosa viagem de Zelaya durou 15 horas e, segundo ele, contou com vários meios de transporte numa travessia por montanhas. Mas ele evitou detalhes, alegando que poderia comprometer os que o ajudaram.
De Nova York, onde participa da Assembleia Geral da ONU, o chanceler Celso Amorim negou qualquer envolvimento do Brasil com a entrada de Zelaya em Honduras e afirmou que ele chegou à embaixada desarmado, junto com a mulher, Xiomara Castro, e uma comitiva de cerca de dez pessoas. O Brasil está temporariamente sem embaixador em Honduras, e Amorim assumiu pessoalmente as negociações pelo lado brasileiro.
Ele esclareceu que Zelaya não tem status de refugiado na embaixada, já que Brasília o reconhece como presidente: — O Brasil não teve dúvidas em conceder abrigo. Esperamos que isso abra uma nova etapa nas negociações, e que uma nova solução baseada na Constituição possa ser alcançada. Nossa posição sempre foi muito clara em repudiar o golpe e em apoiar o retorno do presidente.
Também em Nova York, presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre o golpe militar em Honduras e destacou o apoio a Zelaya como um ponto em comum entre EUA e Brasil, mas evitou comentários sobre o acolhimento ao presidente deposto pela embaixada brasileira.
— Ninguém pode suportar que ainda exista alguém que acredite que um golpe de estado seja vitorioso. E é uma vitória que EUA e Brasil tenham a mesma posição de apoio à democracia na América Latina — disse Lula.
Celso Amorim contou que, uma hora antes da chegada de Zelaya à sede da diplomacia brasileira, uma deputada telefonou à embaixada. O representante comercial Francisco Catunda, responsável pela representação, entrou em contato com Amorim e com o Itamaraty, que permitiram o acolhimento do grupo.
Amorim telefonou ao secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e também ao próprio Micheletti para pedir segurança à embaixada brasileira e a Zelaya.
Em entrevista pela TV, o presidente interino pediu a Brasília que entregasse Zelaya: — Faço um apelo ao governo do Brasil para que respeite a ordem judicial ditada contra o senhor Zelaya, entregando-o para as autoridades competentes de Honduras — disse Micheletti.
O chanceler brasileiro alertara que qualquer ameaça à integridade da embaixada brasileira em Tegucigalpa significaria um precedente “gravíssimo” com relação às leis internacionais. Mas Amorim delegou as negociações à OEA e ao presidente da Costa Rica e Nobel da Paz, Óscar Arias, mediador oficial do conflito.
— Nós não sabemos quanto tempo Zelaya vai ficar na embaixada, mas esperamos que este tempo seja curto e que termine com a volta de Zelaya ao poder. O presidente Óscar Arias estava mediando as negociações e nós apoiamos a continuidade delas — afirmou.
Diplomatas reunidos ontem em Washington numa reunião da OEA acreditam que Zelaya escolheu a embaixada do Brasil de forma calculada, já que poderia encontrar resistência e ser associado a radicalismos se pedisse ajuda à Venezuela ou a outro país da Alba. No entanto, Zelaya não estaria de acordo com o pacto de San José, elaborado por Óscar Arias como proposta de solução para a crise política, segundo a “TeleSur”.
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, fez um apelo por uma solução pacífica para o conflito. Numa reunião extraordinária, a OEA pediu garantias à integridade de Zelaya e defendeu o retorno dele à Presidência. Também em Nova York para a reunião da ONU, Óscar Arias se dispôs a viajar a Honduras. Insulza afirmou ontem que está negociando com o governo golpista uma visita a Honduras, provavelmente hoje: — A volta de Manuel Zelaya muda totalmente o cenário e exige prudência, calma e diálogo para que não se aumente a tensão no país

11 de julho de 2009

HONDURAS: MEDIAÇÕES TERMINAM SEM ACORDO

DAS AGÊNCIAS


TEGUCIGALPA (Reuters) – Os esforços diplomáticos para resolver a crise de Honduras, fracassaram nesta sexta-feira. A "primeira fase" do diálogo que procura solucionar a grave crise política em Honduras,, terminou hoje na Costa Rica sem acordo, mas com "avanços", apesar das duras posições mantidas tanto por Manuel Zelaya, como por Roberto Micheletti. Um complicador para a continuação das negociações é posição de aliados esquerdistas do presidente deposto que prometeram que ele vai retornar ao poder enquanto o governo interino não mudou de posição.
Zelaya e Roberto Micheletti, não chegaram a um acordo nem mesmo se encontraram pessoalmente nas conversações para mediação da crise, realizadas na quinta-feira na Costa Rica.
Eles deixaram em seu lugar delegados para tentar fazer o diálogo avançar, mas parece ter havido pouco progresso nesta sexta-feira e as esperanças de uma rápida solução da crise parecem desvanecer-se.
A decisão de continuar dialogando, em uma data e lugar ainda não definidos, foi o principal resultado de dois dias de conversas mediadas pelo presidente costarriquenho, Óscar Arias. Arias também conseguiu estabelecer uma agenda de temas a tratar, mas preferiu não divulgá-la. No entanto, não conquistou um de seus principais objetivos desta fase: reunir Zelaya e Micheletti em uma mesma mesa de negociações.

Chávez, o inflamado líder venezuelano, declarou as conversações da Costa Rica "mortas antes de começarem". Ele pediu um embargo comercial total a Honduras
Falando em Caracas, Chávez também criticou o governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por ter produzido as conversações mediadas pelo presidente da Costa Rica, dizendo que não pode haver negociações com "um usurpador" em Honduras.
Os comentários de Chávez pareciam prestes a reacender os temores de que ele e outros países aliados esquerdistas de Zelaya, como Cuba e Nicarágua, possam procurar ajudar o presidente deposto a retomar o cargo pela força ou por uma insurreição popular.
Zelaya fez uma tentativa malsucedida de voltar a Honduras no domingo, com o apoio de Chávez, e tem sido aconselhado pelos EUA a negociar em vez de tentar forçar novamente seu retorno. Ele diz que está se empenhando em "métodos pacíficos, não-violentos" para retomar o posto.
“Lamentamos profundamente as desafortunadas declarações de um presidente da América do Sul sobre este importante processo de mediação”, expressou o ex-chanceler hondurenho Carlos López, líder da comissão nomeada na quinta-feira por Micheletti, durante sua breve visita a San José.López assegurou que sua delegação mantém a posição de encontrar uma saída que respeite a Constituição hondurenha e elogiou o trabalho realizado por Arias nas reuniões em sua residência particular em San José.

Micheletti foi nomeado pelo Congresso depois do golpe e diz que a remoção de Zelaya foi legal porque ele violou a Constituição ao tentar alterar o limite do mandato presidencial. Em Honduras, o presidente só pode ser eleito para um mandato, de quatro anos. Micheletti afirma que se Zelaya voltar ao país terá de enfrentar a Justiça.
Uma pesquisa CID-Gallup publicada pela mídia em Honduras na quinta-feira mostrou que 41 por cento dos hondurenhos acham que a destituição de Zelaya foi justificada enquanto 28 por cento se opõem ao golpe

10 de julho de 2009

MICHELETTI CHEGA A COSTA RICA CONFIANTE NO DIÁLOGO

AGÊNCIA ESTADO



SAN JOSÉ, COSTA RICA - O presidente hondurenho designado, Roberto Micheletti, desembarcou hoje na Costa Rica e manifestou confiança em que a mediação do presidente do país, Oscar Arias, levará à solução da crise gerada pelo golpe militar que resultou na deposição de Manuel Zelaya da presidência de Honduras. Ao chegar a San José, Micheletti afirmou que os participantes "trabalharão incansavelmente" para buscar uma saída para a crise.
Zelaya afirmou ontem que não cederá em sua reivindicação de ser reconduzido ao cargo. Micheletti, por sua vez, vinha dizendo que o diálogo "não significa que será permitido o regresso de Zelaya ao poder". O ministro hondurenho da Defesa, Adolfo Lionel Sevilla, afirmou que "no momento não está previsto nenhum encontro entre Micheletti e Zelaya porque as reuniões (com Arias) ocorrerão separadamente".
Em Washington, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, disse que "todas as opções estão na mesa", entre elas a possibilidade de um acordo para a convocação de eleições antecipadas em Honduras.