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10 de julho de 2009

GOL DE RONALDO

DE JANIO DE FREITAS


FOLHA DE S PAULO

A informação de Ronaldo traz colaboração importante, se não para inquérito, por certo para uma biografia de Lula

CONHECIDAS OUTRAS relações suspeitas ou comprometedoras entre Lula e ao menos uma empreiteira, nem a alienação dos grã-finos da oposição, nem artimanhas ou equívocos de transcrição podem obscurecer a gravidade da informação dada pelo jogador Ronaldo sobre outro comprometimento do próprio presidente da República com empreiteiras.
Em contraste com as versões publicadas no noticiário como se literais, mas todas abrandando a frase objetiva e clara de Ronaldo, Tostão, o cronista craque, fechou sua coluna de ontem com uma nota, "Absurdo", que repõe sentido e tempos verbais adequados ao original: "Ronaldo disse no programa "Bem, Amigos", do SporTV, que o presidente Lula tem ajudado bastante o Corinthians por meio de contatos com empreiteiros para a construção do centro de treinamento do clube! Absurdo um presidente fazer isso! Parei!"
Ronaldo segundo o noticiário da Folha: "Ele [Lula] é a principal pessoa que tem ajudado o Corinthians nesta nova fase. Mas não é ajuda financeira. O que ele tem feito é passar contatos de empreiteiras e indicar empresas que podem ajudar".
Ronaldo segundo "O Globo", na primeira página, lá sem aspas de palavras de transcrição: "Ronaldo surpreendeu ao afirmar, no "Bem, Amigos", do SporTV, que o presidente Lula vai indicar as empreiteiras que construirão o centro de treinos do Corinthians". Ronaldo na página principal de esportes, com sinal de transcrição literal: "O presidente Lula é quem mais está ajudando o Corinthians nessa fase. Ele está dando alguns contatos de empreiteiras que podem nos ajudar, mas não é financeiramente. Ele é fanático, um corintiano roxo. O presidente está sabendo de tudo e indica as empresas que podem ajudar".
Registro meu, no trecho que aqui interessa, quando referido o encontro do jogador com Lula: ..."é uma das pessoas que mais ajudam o Corinthians. É o que ajuda mais. Ele pede a empreiteiras para nos ajudar".
Notícia anterior ao Lula presidente deu conta de que sua filha morava em Paris custeada por uma empresa, citada mais tarde como uma empreiteira. Já em pleno mandato, a gigantesca empreiteira Andrade Gutierrez associa-se, e infla de capital, a pequena ou micro empresa de que um filho de Lula é sócio. E há meio ano está aí, consumada, uma das maiores aberrações já havidas no Brasil em negócios privados com a mão e o dinheiro providenciados pelo governo: a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar (Grupo Andrade Gutierrez) antes mesmo que Lula alterasse a lei para torná-la possível.
Um dos três inquéritos pedidos, agora, pelo procurador federal Rodrigo de Grandis no caso Satiagraha, refere-se ao negócio BrT-Oi/Telemar, porque financiado por dois bancos estatais, o BNDES e o do Brasil, e participação de Daniel Dantas, com suspeita de crime financeiro ou lavagem de dinheiro em torno de sua parte. Esse é um inquérito que, se levado adiante pelo Judiciário, pode chegar ao que uma CPI, caso os partidos oposicionistas fizessem oposição com honestidade e civismo, já poderia ter chegado.
Tal como dada mesmo, a informação de Ronaldo traz uma colaboração importante. Se não para o inquérito, cujo pedido o Judiciário talvez prefira em um arquivo, por certo para uma biografia de Lula mais verdadeira do que a fabricada pela Unesco para um prêmio sem candidatos.

7 de julho de 2009

DENÚNCIA DE SATIAGRAHA LIGA DANTAS AO MENSALÃO

MANCHETE DA FOLHA 0707/2009


DANTAS ABASTECEU CAIXA DO MENSALÃO, DIZ PROCURADORIA

Ministério Público acusa banqueiro do Opportunity e mais 13 pessoas de sete crimes

Acusados dizem não ter cometido crimes apontados na acusação, formalizada quase um ano depois de a PF deflagrar a Satiagraha


A Procuradoria da República em São Paulo ofereceu denúncia contra o banqueiro Daniel Dantas e 13 pessoas por suposto envolvimento em sete crimes diferentes, dentre os quais gestões temerária e fraudulenta e evasão de divisas. Pediu a abertura de três inquéritos policiais, um deles específico sobre a fusão, no ano passado, das empresas de telefonia Brasil Telecom e Oi/Telemar, que deu origem à maior tele do país.
Uma das acusações trata do envolvimento de Dantas e do grupo Opportunity no financiamento do mensalão, o esquema montado pela direção nacional do PT e pelo publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes Souza para corromper políticos da base aliada do governo federal no Congresso.
Segundo a denúncia, que recupera as investigações feitas pela CPI dos Correios, a companhia telefônica Brasil Telecom, então controlada por Dantas, pagou R$ 3,37 milhões para as empresas de Valério.Os valores "não estavam vinculados a nenhum contrato" e entraram no caixa único de Valério, do qual saíram os recursos usados no esquema de compra de apoio de congressistas e partidos entre 2003 e 2005.
A denúncia, protocolada pelo procurador da República Rodrigo de Grandis na sexta, como a Folha adiantou no sábado, está sob avaliação do juiz da 6ª Vara Federal Criminal de SP, Fausto Martin De Sanctis, que decidirá se acolhe a denúncia. Se o fizer, os 14 denunciados se tornarão réus de processo penal -e caberão recursos em várias instâncias. Eles negam ter cometido os crimes.
A peça, à qual a Folha teve acesso, tem 80 páginas que resumem 40 volumes principais e 400 volumes de anexos produzidos pela Polícia Federal e pela Procuradoria da República em São Paulo desde o início de 2007, no curso da Operação Satiagraha, deflagrada há um ano pela PF sob acompanhamento da Justiça Federal.
A denúncia de De Grandis descreve sete "fatos criminosos" que teriam tido a participação de Dantas. Relata acusações feitas a Dantas nos últimos anos, mas que ainda não tinham sido objeto de uma acusação criminal formal, como as acusações contidas na auditoria interna feita em 2005 pelos novos controladores da Brasil Telecom e a própria participação da empresa no financiamento do "valerioduto".
Gestão fraudulenta

A passagem de Dantas pelo controle da Brasil Telecom, resumida como "gestão fraudulenta", mereceu várias páginas da denúncia. O uso dos recursos para o mensalão se enquadrou nessa categoria.Também são mencionados o Consórcio VOA, empresa aérea criada por Dantas no âmbito da Brasil Telecom, mas que não atendia apenas a área sob responsabilidade da telefônica, o pagamento de funcionários do Opportunity pela BrT (uma assessora da presidência teria recebido salário mensal de R$ 26 mil mais um bônus de R$ 1,1 milhão) e uma reforma luxuosa da sede do banco Opportunity em São Paulo, que custou R$ 2,13 milhões.
No tocante ao banco Opportunity, duas acusações têm maior espaço na denúncia: a que trata da suposta remessa ilegal, por meio de doleiros, para o Opportunity Fund, nas ilhas Cayman, e a ausência de controles internos para combate à lavagem de dinheiro. Os diretores do Opportunity teriam deixado de implementar um sistema para prevenção e detecção de lavagem.
O inquérito também revelou que na casa do empresário Humberto Braz foi achado pela PF um papel intitulado "Contribuições ao Clube", que listava pagamentos a pessoas diversas ainda não identificadas.
Pois um documento idêntico fora encontrado pela PF, no mesmo dia 8 de julho de 2008, no apartamento de Dantas, no Rio. Isso, nas palavras do procurador, "evidencia que a corrupção de funcionários públicos (ou seja, a simbiose com o Estado!) é prática contumaz e elemento definidor da organização criminosa que foi implementada e desenvolvida sob os auspícios do Opportunity".
O procurador da República arrolou 20 pessoas como testemunhas, entre as quais o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger. Ele prestou serviços a Dantas numa das disputas com sócios da Brasil Telecom.Outra testemunha arrolada é Sérgio Ricardo Silva Rosa, presidente da Previ e antigo adversário do Opportunity nas disputas societárias, ex-presidente da Confederação Nacional dos Bancários, ligada à CUT (Central Única dos Trabalhadores