Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens

30 de maio de 2010

O BANCO CENTRAL ERRA, MAS ........




Maílson da Nóbrega


VEJA

"É assim que funciona. O BC mira o ‘balanço de riscos’.

Quando o risco é de inflação, aumenta a taxa de juros; se é de crescimento, diminui"

Compostos de seres humanos, os bancos centrais erram. O americano Federal Reserve cometeu equívocos famosos. Errou após o colapso da bolsa em 1929, contribuindo para a Grande Depressão. Errou durante a Guerra do Vietnã, provocando forte inflação. Diz-se que causou a crise de 2007-2008 ao manter a taxa de juros baixa por muito tempo.

É difícil antecipar com segurança esse tipo de erro, mesmo porque os acertos dos bancos centrais são muito maiores. Por exemplo, antes da crise muitos apontavam o suposto erro do Fed, mas isso nunca foi pacífico. Economistas de renome sustentam que outras causas seriam as responsáveis maiores pelo desastre.

Recentemente, o ex-governador José Serra fez duras críticas ao Banco Central. "Não baixar os juros num contexto em que não tinha inflação simplesmente foi um erro." Assim, o presidente da República "tem de fazer sentir sua posição" se houver "erros calamitosos". A autonomia do BC deveria ser exercida "dentro de certos parâmetros".

Ora, é assim que funciona. O BC mira o "balanço de riscos". Quando o risco é de inflação, aumenta a taxa de juros; se é de crescimento, diminui. O Fed deve, por lei, promover a estabilidade de preços e o crescimento, mas não busca um objetivo em detrimento do outro. Também adota o princípio do "balanço de riscos".

A autonomia operacional de um banco central se funda na ideia de que a estabilidade dos preços é um bem público essencial para o crescimento, para os avanços sociais e para a estabilidade política. Isso implica recrutar gente altamente qualificada, capaz de acertar ao máximo a identificação daqueles riscos.

A autonomia do BC ainda é uma criança se comparada à do Fed (1913). Esse status começou a ser construído nos anos 1980, com medidas que incluíram o fim de suas funções de desenvolvimento, incompatíveis com as de autoridade monetária. A autonomia se firmou com a criação do Comitê de Política Monetária, o Copom (1996).

O BC dispõe de amplas informações e experiência para evitar erros. O acervo de boas decisões já é vasto. Técnicos bem treinados se dedicam à tarefa de assessorar os membros do Copom. O bom nível de transparência e previsibilidade é reconhecido aqui e no exterior. Claro, o BC não é uma unanimidade, nem isso é desejável.

O controle político do BC, sugerido por Serra, não existe em outros países. Nas democracias, o chefe do governo está limitado por normas e práticas – as instituições – que inibem a ação voluntarista. O êxito da democracia e da economia de mercado deriva da criação de inibidores institucionais à ação discricionária e imprevisível dos governantes.

Se o presidente pode "fazer sentir sua posição", a autonomia do BC inexiste. E se for ele o equivocado? O potencial de erros diminui com o nível de qualificação profissional da diretoria. Se o BC puder receber ordens, somente os pouco qualificados aceitarão o convite. Os agentes de mercado se sentirão inseguros. O BC perderá a capacidade de coordenar expectativas. O custo de combater a inflação será mais alto.

Serra disse que os diretores do BC não são eleitos. Esse é um velho ponto. Quem não foi escolhido pelo povo tem legitimidade para decidir sobre a taxa de juros? Onde a autonomia do banco central é legal, a legitimidade deriva da delegação de autoridade, concedida pelos que foram eleitos. O objetivo é manter o banco à margem de interesses políticos imediatos, preservando um bem valorizado pela sociedade.

Em geral, a contrapartida da delegação de poder é a prestação de contas ao Parlamento. No Brasil, a autonomia do BC costuma ser questionada, mas a instituição não tem obrigação de prestar contas ao Legislativo. Melhor seria colocar em lei a autonomia e o comparecimento regular ao Congresso. De quebra, isso lembraria aos nossos políticos o papel que lhes cabe na manutenção da estabilidade. Em vez de críticos, partícipes.

Serra é um grande líder político, culto e experiente. Parece imaginar que, na Presidência, consertaria um "erro calamitoso" do BC sem que isso significasse "virar a mesa". Creio que não cometeria a temeridade. Falariam mais alto o bom senso e o peso do cargo. Ele não confundiria ousadia com irresponsabilidade

28 de maio de 2010

CLASSE D AGORA VAI AOS BANCOS




Gasto de R$ 380 bi da classe D atrai bancos
Autor(es): Angela Bittencourt, de São Paulo
Valor Econômico - 28/05/2010

A perspectiva de gastos de R$ 380 bilhões pela classe D neste ano atrai os bancos, que investem para receber uma massa de clientes despreparados para lidar com o universo financeiro.

Na última década, dobrou o número de aplicadores com até R$ 5 mil no mercado. Em 2009, 136 milhões de brasileiros tinham dinheiro guardado.

O movimento formiguinha anima os bancos e justificou pesquisa do Data Popular para a Febraban mapeando esse novo personagem. A constatação é que o consumidor acredita que a vida melhorou e vai continuar melhorando.

De olho no avanço da população de baixa renda para a classe média, os bancos "investem" para receber uma massa de investidores despreparados para lidar com o universo financeiro.

Um batalhão de consumidores reunidos na classe D, turbinado por crescimento econômico consistente e vigorosa oferta de trabalho, tem poder de compra suficiente para sancionar gastos de R$ 380 bilhões em bens e serviços apenas em 2010 - cifra que vai superar a soma do consumo das classes B e C, calcula o Bradesco.

A chegada desse batalhão atordoa economistas preocupados com demanda e inflação, alegra o comércio e anima os bancos.

Na última década, mostra o Fundo Garantidor de Crédito, dobrou o número de aplicadores de até R$ 5 mil no mercado brasileiro. No final de 2009, cerca de 136 milhões de clientes tinham algum dinheiro no "colchão".

Cadernetas de poupança, títulos de capitalização e títulos bancários estão no foco do movimento "formiguinha", incentivador da mobilização de grandes bancos na formatação de produtos, treinamento de mão de obra e educação financeira.

Os bancos correm para mapear a nova clientela por constatar que valores e comportamentos que pautam o relacionamento com clientes de maior porte ou renda, nem sempre se aplicam aos clientes emergentes.

O Bradesco atende o segmento da baixa renda há dez anos. O Banco do Brasil atua fortemente há três anos. A Caixa oferece produtos a esse público desde 2003, ampliando sua presença nesse mercado a partir de 2006.

Uma pesquisa do Data Popular para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) dá dicas para lidar com esse novo cliente.

Briga de casal, cano entupido e pneu furado, que tiram a paciência de qualquer um, podem implodir o orçamento de milhões de brasileiros, levando à inadimplência, mostra a pesquisa.

Lazer e imprevistos não são racionalizados e, por isso, não são computados no orçamento doméstico que pode ser abalado por eventos corriqueiros.

Entre os "grandes" imprevistos que podem desequilibrar os clientes da baixa renda estão uma gravidez inesperada, a morte de um familiar, uma doença ou uma separação. Entre os "menores" estão pneu furado, assalto ou um convite inesperado para um aniversário.

O Data Popular avisa que dinheiro, para esse segmento de cliente, é um meio e não um fim. Não há preocupação em construir patrimônio financeiro, mas em garantir bem-estar para a família e para os amigos.

A pesquisa alerta que o consumidor acredita que sua vida melhorou e que vai continuar melhorando. Portanto, um programa de educação financeira não pode caminhar na direção contrária a este otimismo. O mercado de trabalho forte incentiva os bancos a acolher os aplicadores emergentes. Em contraponto, o desemprego e a informalidade servem de alerta para riscos de inadimplência.



7 de outubro de 2009

SINAIS DESENCONTRADOS

MERVAQL PEREIRA


O GLOBO 07/10/2009

O aumento de 0,25 ponto percentual, de 3% para 3,25%, na taxa básica da Austrália, o primeiro país do G-20 a aumentar os juros após a crise econômica, desencadeou percepções desencontradas. Se, por um lado, ajudou a reforçar o que o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz chama de “exuberância irresponsável” das bolsas em todo o mundo, na sensação do mercado de que a crise foi superada, por outro desencadeou o temor de que seja o primeiro de uma série de movimentos em algumas economias para controlar as consequências do que já está sendo classificado de “déficit excessivo”, provocado pelas medidas anticíclicas tomadas para estimular as economias globais na crise internaciona
No Brasil, já há previsões do mercado de que a taxa básica de juros subirá até o fim do próximo ano, diante dos sinais de que a economia brasileira está retomando um ritmo de crescimento que pressionará a inflação.
O problema é que no Brasil o governo central apresenta um déficit nas contas públicas equivalente a 3,52% do PIB, que é compensado pela atuação de estados e municípios.
As políticas anticíclicas brasileiras, ao contrário das da maioria dos outros países, foram baseadas em aumentos dos gastos correntes, e não em investimentos, que continuam patinando em torno de pouco mais de 1% do PIB
Com isso, a pressão dos gastos se torna permanente, o que reaquece o mercado interno, ajudando a recuperação econômica, mas dificulta o equilíbrio das contas públicas.
Além das questões puramente econômicas, deparamos no Brasil com uma questão política delicada. Sendo o próximo ano daqueles em que estará em jogo o controle político do país, com eleições para a Presidência da República, governadores, a Câmara e dois terços do Senado, haverá capacidade política do governo federal para subir a taxa de juros se for necessário? Mais ainda: tendo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se filiado ao PMDB e estando na disputa para ser candidato a vice-presidente da República na chapa oficial ou até mesmo, no limite, candidato a presidente da República, manterá ele a vontade política que demonstrou até agora de arrostar as críticas, inclusive de setores do governo, para aumentar os juros, se necessário, ou raciocinará com suas possibilidades políticas futuras, evitando medidas impopulares? Mesmo que até abril, data limite para quem quiser se candidatar a alguma coisa, Meirelles não precise tomar qualquer atitude em relação aos juros, quem será seu sucessor? A escolha desse sucessor já demonstrará ao mercado qual a disposição do governo brasileiro no ano eleitoral.
Em qualquer situação, a melhor resposta seria a permanência de Meirelles no cargo e a prevalência da autonomia informal do Banco Central.
E, mesmo assim, o empenho do próprio presidente Lula em eleger sua sucessora poderá trazer dificuldades políticas desconhecidas até então pelo Banco Central.
Outra questão fundamental é a definição do que seja o término da crise econômica.
A situação está tão confusa ainda que várias vozes de peso, como o próprio Stiglitz e o economista Nouriel Roubini, revelam o temor de que a ilusão de que a crise foi superada leve governos a recuar das medidas de incentivo às economias antes do tempo
Na linha oposta está um artigo do economista Luigi Zingales publicado na “National Affairs”, uma recém-lançada revista quadrimestral, de tendência conservadora.
Zingales, um respeitado professor de empreendedorismo e finanças da Escola de Negócios da Universidade de Chicago, acredita que o capitalismo americano encontrase em uma encruzilhada, e que a maneira como o governo Obama está enfrentando a crise significa que as questões de fundo não estão sendo atacadas.
O professor de Chicago acredita que a “raiva popular” deveria ser canalizada para apoiar reformas “genuinamente pró-mercado”, introduzindo limites ao poder da indústria financeira e restaurando princípios que considera fundamentais e que dão “dimensão ética” ao capitalismo: liberdade, meritocracia, uma ligação direta entre recompensa e esforço, um senso de responsabilidade que garanta que aqueles que alcancem os lucros também ficarão com os prejuízos.
A alternativa a uma política voltada “mais para o mercado do que para os negócios” seria o que o governo Obama está fazendo, na opinião de Zingales: acalmar a “raiva popular” com medidas como limitar os bônus dos executivos, mas ao mesmo tempo escorar a posição das grandes setores financeiros, fazendoos dependentes do governo.
Zingales cita um recente estudo dos professores Rafael Di Tella e Robert McCulloch que mostra que nos Estados Unidos é maior do que em qualquer outro país a percepção de que, no capitalismo, é o trabalho duro, e não a sorte, que determina o sucesso.
Enquanto nos Estados Unidos apenas 40% acreditam que a sorte tem um papel mais importante no sucesso do que o trabalho, no Brasil esse número chega a 75%, e na Alemanha chega a 54%
Na Itália, cerca de 80% dos dirigentes empresariais consideram “importante” ou “muito importante” para o sucesso empresarial e financeiro “conhecer pessoas influentes”, e “lealdade” e “obediência” são virtudes que vêm antes de “competência” e “experiência”.
O professor Luigi Zingales considera que a ingerência do governo Obama na economia, a pretexto de salvá-la da crise econômica, está fazendo com que o capitalismo americano perca suas características mais valiosas.
“Quando a poeira baixar e o pânico for controlado, essa talvez demonstre ser a mais séria e danosa consequência da crise financeira para o capitalismo americano”, diz o professor.

1 de outubro de 2009

RECESSÃO AMERICANA

A economia dos EUA encolheu 0,7% no segundo trimestre em relação a igual período de 2008, resultado final para o período. Foi a quarta retração consecutiva. As estimativas anteriores apontavam queda de 1%. A economia americana, a maior do mundo, está se recuperando melhor do que o estimado previamente, segundo o FMI, que projeta uma contração de 2,7% este ano e uma expansão de 1,5% em 2010 (-2,6% e +0,8% respectivamente na previsão de julho.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) melhorou nesta quarta-feira (1) as previsões para a maioria dos países e disse que a economia mundial finalmente está saindo da recessão profunda, puxada por uma retomada vigorosa na Ásia. Alertou, no entanto, que a recuperação enfrenta muitas dificuldades.