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31 de maio de 2010

VAI, AMORIM, ENFIANDO O PÉ NA JACA…



VEJA

REINALDO AZEVEDO

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Itamaraty faz o que bem entende com boa parte da imprensa brasileira. E não é de hoje. Celso Amorim, o Colosso de Rhodes da diplomacia mundial, consegue transformar, por aqui, em sucessos todos os seus desastres. Até agora, o Megalonanico petista não ganhou uma. Mas emplaca suas versões com impressionante habilidade. Pronto! Celso Amorim é um ministro das Relações Exteriores especialista em enganar jornalismos interiores…

No Estadão de ontem, havia uma reportagem cujo título era este: “Desmentido dos EUA irrita Itamaraty”. Uma “alta fonte” da diplomacia brasileira deu uma declaração em off, embora entre aspas, o que é um procedimento interessante e revolucionário. O sujeito não tem rosto nem nome, mas tem voz. Disse ao jornal:
“Causa estranheza ouvir de representantes do terceiro ou quarto escalão do governo dos EUA frases que põem em dúvida o que a mais alta autoridade americana afirmou, por meio de carta, ao presidente de outro país”.

Essa “alta fonte”, dada a qualidade da intervenção, deve ter sido mesmo Celso Amorim. “Fonte”, vá lá. Que seja “alta”, aí já é manifestação de generosidade do jornal.

Como se nota, o dito-cujo está se referindo à entrevista de funcionários do Departamento de Estado dos EUA, concedida na sexta-feira, em que afirmaram que a tal carta de Barack Obama a Lula não continha “instruções” para acordo nenhum. Mas isso era até o de menos e vou dizer por quê. Antes, uma lembrança: já havíamos comentado essa carta aqui há quase duas semanas. Ela deixa claro, note-se, que os EUA não abririam mão das sanções se o Irã não subordinasse à inspeção da AIEA o seu programa nuclear. E, naquele fabuloso dia 17 de maio, enquanto o Brasil batia tambor para o acordo, os iranianos anunciaram que continuariam a enriquecer urânio, tirando a escada de Amorim e Lula, deixando-os pendurados na brocha. Não é que os dois não soubessem que assim seria; só não contavam que o Irã fosse ser tão rápido em desmoralizá-los. Menos de 24 horas depois, os EUA anunciaram o entendimento das cinco potências para as sanções.

Por que a carta era o de menos? Os funcionários americanos — que Celso Amorim ou um prepostinho seu considera de “terceiro ou quarto escalões” (ao menos eles tinham cara, não oferecendo aspas sem rosto) — revelaram que a carta era um entre muitos documentos. Informaram que o Brasil recebeu relatórios secretos do serviço de Inteligência dos EUA com informações sobre o programa nuclear iraniano. E, ESCÂNDALO DOS ESCÂNDALOS!, a quase totalidade da imprensa fez de conta que isso não era “A” notícia!

O governo brasileiro omitiu essa informação de todo mundo e vazou a carta de Obama, o que, não fosse uma tentativa descarada de manipulação, já caracteriza uma grosseria. Vale dizer: o Brasil negociou com o Irã sabendo tudo, ou quase tudo, que os EUA sabiam — e isso inclui o dado essencial de que Ahmadinejad manteria no país, estocada, pelo menos uma tonelada de urânio, que pretende enriquecer por conta própria, sem qualquer acordo. Estima-se que é suficiente para conseguir ao menos um artefato nuclear. Não só! Sabe-se agora que a Coréia do Norte, outro estado delinqüente, está colaborando com os programas nucleares da Birmânia e do… Irã!!! Não duvido nada que Lula e Amorim soubessem disso também.

O governo brasileiro planta ainda duas versões, que estão sendo muito bem-aceitas por alguns dos nossos jornalistas comportados e nacionalistas. A primeira: os EUA estariam exercendo uma estratégia de “controle de danos”, para tentar reverter um suposto desgaste gerado pelo “vazamento” da carta… Nem diga! A imagem do país e a de Obama ficaram abaladíssimas!!! No mundo, só se fala de outra coisa.

A outra informa que Obama e Hillary estariam usando o Irã para resolver seus problemas internos. Como enfrentarão em breve eleições legislativas, querem evitar a pressão dos republicanos etc. e tal… Pois é. Isso é, com efeito, parcialmente verdadeiro numa democracia e numa República, como efetivamente são os EUA. Governos têm de se ocupar do que pensam as outras forças políticas. E a razão é simples: ELAS TAMBÉM REPRESENTAM OS AMERICANOS, EM NOME DOS QUAIS BARACK OBAMA EXERCE A PRESIDÊNCIA. Por lá, ser oposição não é tratado como ato criminoso ou falta de juízo, a exemplo do que se dá a entender, às vezes, no Brasil.

Quem está, aí sim, numa estratégia de “controle de danos”, parcialmente bem-sucedida, é o Itamaraty. Na média, reitero, a imprensa brasileira ainda não refletiu o tamanho do desastre diplomático a que Amorim e Lula nos expuseram desta vez. Ao contrário: parte dela vestiu a camisa verde-amarela e passou a se comportar como torcida.

O fato é que este gigantesco factóide falhou! Só resta agora brincar de fazer discurso antiamericano na boca da urna. Um dos jornalistas do Franklin já foi escalado para sugerir que tudo, no fundo, seria mesmo culpa de FHC, que até teria convencido Bill Clinton a convencer Obama a não visitar o Brasil antes das eleições. A máquina, meus caros, é poderosa! O chato, nesse caso, é que os EUA têm como se comunicar com o mundo. Não dependem da televisão da Teresa Cruvinel. Imaginem o “acordo” sendo vendido pela Lula News a 49 países africanos! Huuummm… Só seis entendem o português. E isso nem quer dizer necessariamente que entendam direito o que Lula fala.

30 de maio de 2010

NÃO, NÃO É TODO MUNDO IGUAL


VEJA

REINALDO AZEVEDO


domingo, 30 de maio de 2010

Na sexta-feira, a Folha de S. Paulo escreveu um editorial cobrando mais clareza dos candidatos sobre temas que considera — e que também considero — relevantes. Poderia ter rendido um bom texto, mas o editorialista acabou se perdendo um tantinho. Direi por quê.

Um jornal, um articulista ou u debatedor não podem chamar de “indefinição”, “omissão” ou algo parecido o que é uma discordância. O juízo que iguala os desiguais é serviço prestado à injustiça. Encontro no texto o que segue:
Não se espera, por certo, que candidatos tenham resposta pronta para toda e qualquer questão. Mas tudo faz crer que o silêncio dos candidatos se deve menos a algum tipo de indecisão de ordem pessoal, e mais a uma arraigada cultura da intransparência e do subterfúgio, especialmente notável na política brasileira.
Pode-se argumentar que, no estágio atual de desenvolvimento do país, questões mais urgentes estão na pauta. A tese não se sustenta, por vários motivos.
As mortes de mulheres em casos de aborto desassistido, por exemplo, configuram uma tragédia de grandes proporções - e não há eufemismo que exima os candidatos de considerá-la em suas implicações substantivas.

Como se nota acima, o texto está se referindo ao aborto. Observem que a Folha, contrariando o espírito anunciado do editorial, não está censurando os candidatos por conta dos “subterfúgios” e da “intransparência”, mas porque eles não disseram aquilo que ela quer ouvir e porque não convergiram para a sua tese, favorável à legalização do aborto.

Serra e Marina já foram claríssimos a respeito: defendem a lei como está hoje — o aborto é permitido em caso de risco de morte da mãe e de estupro; em breve, o STF deve “legalizar” a interrupção da gravidez no caso de fetos anencéfalos. A única ambígua nesse tema é Dilma. Há entrevistas suas defendendo a legalização. O “Plano Nacional-Socialista de Direitos Humanos”, que passou pela Casa Civil, que ela chefiava, tinha feito do aborto um “direito humano”. O governo recuou. Recentemente, de olho nas urnas, a petista decidiu defender a lei como está… Ela até virou devota da Nossa Senhora de Forma Geral!!!


Os candidatos tucano e verde não são ambíguos coisa nenhuma! Ele já foi ministro da Saúde e nunca encaminhou esse debate. Ela, tornada a preferida da “descolândia”, merece meu particular respeito porque não traiu sua convicção para fazer as vontades do seu eleitorado. Falta coragem à Folha para censurar a hipocrisia da petista? Dilma, sim, era pró-aborto há dois anos; agora, ela acredita que é preciso discutir o assunto…

O editorial fala da “morte de mulheres em caso de aborto desassistidos”. Pois é! Esse é um dos grandes mitos plantados pela militância abortista, tornada verdade absoluta e inquestionável. Cadê os números? Desafio a Folha a exibi-los. Não vai porque não os tem. Porque ninguém os tem. Inexiste essa notificação nos hospitais. Essa é uma “verdade” criada pelo lobby dos grupos que defendem a legalização do aborto no país, incluindo o Ministério da Saúde de Temporão.

Fala-se em 1,5 milhão de abortos provocados no país, com até 250 mil mortes de mulheres. É uma estupidez! A população brasileira estaria condenada à extinção. Teríamos, em breve, de importar mulheres!!!

Vamos ver: nascem, por ano, 2,8 milhões de crianças no país, e os abortistas dizem que há 1,5 milhão de abortos provocados. Somados, temos aí 4,3 milhões de gestações. Estudos apontam que 25% das gestações terminam em abortos espontâneos. Logo, aqueles 4,3 milhões perfariam 75% do total de gestações, que chegariam a 5,73 milhões. Vão acompanhando… Se, num universo de 5,73 milhões, nascem 2,8 milhões, e, se há 1,5 milhão de abortos provocados, 1,43 milhão deles seriam espontâneos. E estaríamos, então, diante da realidade fabulosa e única no mundo de um país que tem mais abortos provocados do que espontâneos. É uma boçalidade!

A Folha precisa se conformar com o fato de que nem todos os candidatos concordam com ela nessa questão do aborto — e certamente em outras tantas. Não é indefinição, ambigüidade ou algo assim: é divergência mesmo.

O editorial diz também que os três candidatos não foram claros sobre a política externa. Não?! Foram, sim! Serra e Marina já deixaram claro que autodeterminação de países não se confunde com o endosso a ditaduras e conivência com governos que desrespeitam os direitos humanos. Dilma diz estar com o Itamaraty para o que der e vier — o que, entendo, significa o endosso às ditaduras.

Decretar que todo mundo é igual é um conforto para os editoriais. Mas pode não espelhar a realidade dos fatos. Decretar que todo mundo é igual pode ser só uma tática de parecer crítico com todo mundo para não se queimar com ninguém. Em situações assim, o pior sempre sai ganhando. Vale dizer: decretar que todo mundo corresponde a privilegiar o pior.

A IMPRENSA, A TORCIDA DESCARADA EM FAVOR DE DILMA E OS FATOS




VEJA

REINALDO AZEVEDO

domingo, 30 de maio de 2010


Se os petistas tivessem a certeza que têm os “analistas” e os 180 mil colunistas da imprensa brasileira de que a petista Dilma Rousseff vencerá a eleição, o PT poderia ficar parado, esperando cumprir-se a predição, que, em seus momentos mais patéticos, aspira até a certa matemática. Especialistas de si mesmos pontificam isso e aquilo com base na experiência acumulada que têm em… escrever os próprios textos!!!

Eu não sei quem vai ganhar; “eles” sabem porque têm um receio danado de contrariar a categoria… O que sei é que, há quatro anos, nesta fase, o então candidato tucano, Geraldo Alckmin, estava mais de 20 pontos atrás do candidato petista — era Lula, não Dilma. Computadas as urnas, a diferença foi inferior a sete pontos no primeiro turno. Entre maio e outubro, havia muita coisa no meio do caminho. Que as circunstâncias indiquem que Dilma é favorita, isso é óbvio. E faz tempo — o que já se apontou aqui. Daí a direcionar o noticiário COMO SE FOSSE FALTA DE OBJETIVIDADE CONSIDERAR O RESULTADO INDEFINIDO, VAI UMA GRANDE DIFERENÇA.

Explico melhor se a muitos não ficou claro. Como se tem aquela certeza no horizonte, procura-se contar a história presente a partir do fim. A única pauta que parece legítima do reportariado é apontar “princípio” de crise na candidatura tucana: “crise da queda nas pesquisas”; “crise do vice”; “crise no relacionamento com o DEM”; “crise da recusa de Aécio”, “crise do sei-lá-o-quê”… Afinal, o exército de colunistas precisa fazer o presente convergir com aquilo que é uma convicção sobre o futuro. Notem: uma coisa é ler números, tendências, apontar perspectivas. Outra, diferente, é rechear esse raciocínio prospectivo com supostas ocorrências. Uma segunda manifestação negativa desse comportamento está em simplesmente IGNORAR OS FATOS. Exemplifico.

Na semana passada, Serra e Dilma participaram de um seminário sobre saúde. Tenho relatos do evento — acreditem: de serristas e anti-serristas — afirmando que ele teve um desempenho excelente, e ela, nem tanto. E o que registrou a chamada “grande imprensa”? Os dois fizeram propostas parecidas! Mas é inegável que aquela pauta era de Serra, não de Dilma. A candidata petista “colou” o seu discurso ao do adversário. E isso não se apontou porque, bem…, porque poderia ser considerado “serrismo”. Para ser justo: houve um texto na VEJA.com a respeito.

Setores importantes da grande imprensa são hoje reféns da patrulha petista. Os patrulheiros pagos pelo partido têm lá do que se orgulhar: conseguem intimidar parte do jornalismo. E há, evidentemente, a infiltração partidária nas redações, velha conhecida.

O caso da Bolívia, então, chega a ser escandaloso. Tudo virou uma espécie de Fla X Flu. Serra acusou o governo boliviano de conivência com o tráfico. O governo da Bolívia protestou, claro!, e também o fez o governo brasileiro, como se lhe coubesse participar do embate. Serra nem o incluiu na acusação —  o que pode e deve fazer porque, com efeito, o Brasil é um dos patrocinadores do governo Evo. O BNDES financia a estrada da coca. Leiam reportagem na VEJA desta semana sobre o brutal crescimento da produção de cocaína na Bolívia — quase a totalidade destinada ao Brasil. Segundo editorial da Folha, publicado no sábado, a crítica de Serra está na categoria “do subentendido infeliz e do ataque velado”. O que há de “subentendido” ou “velado” na fala do candidato tucano? Daria para ser mais direto do que ele foi? Esse editorial, aliás, vai me render outro post, abaixo.

Se esses setores da imprensa brasileira estão com preguiça de investigar, poderiam dar uma espiada na imprensa boliviana, facilmente encontrável na Internet, para saber como são as coisas. Nada! Não se fez nada! Ou se fez: na sexta-feira, Folha Online e Estado Online abriram suas páginas para o ataque dos petistas e do governo da Bolívia ao tucano: AFINAL, O JORNALISMO, HOJE EM DIA, VIROU ESTE TROÇO EM QUE UM FALA, O OUTRO RESPONDE. E PRONTO! E a verdade? Bem, a verdade que se dane! Tudo é disputa. E, como essa gente acha que Dilma vai ganhar, então as notícias sobre Serra são sempre filtradas por essa antevisão. Uma reportagem evidenciando que sua fala está certa seria… serrismo!!!

Um leitor que ignorasse tudo sobre o Brasil e lesse a imprensa brasileira, especialmente a de São Paulo, certamente indagaria: mas como é que este tal Serra tem entre 35% e 38% do eleitorado há tanto tempo se ele é como pintam os atuais 3 milhões de colunistas da imprensa brasileira (eles já se multiplicaram entre o primeiro parágrafo e este…)? Vai saber, não é? Vai ver o povo é sábio quando escolhe o candidato deles e deve ser imbecil quando escolhe algum outro. Eu, como vocês sabem, não acho o povo nem sábio nem imbecil. Eu nem mesmo reconheço essa categoria… Se existisse, ele seria apenas culpado… Mas isso fica para outra hora.

Encerro observando que estou entre aqueles que defendem que os veículos de comunicação têm todo o direito de ter candidatos. Não podem é mentir. No meu mundo, eles deixariam claras as suas preferências. Esse esforço para pairar acima das escolhas, num lugar político e retórico que considero inexistente, abre caminho para o “entrismo” disfarçado de objetividade analítica e independência.

Tendo a acreditar que o leitor contemporâneo cobra mais transparência de quem escreve. Gosta de saber quais são as afinidades eletivas do “analista”. Por mais que isto soe herético a muita gente, o jornalismo impresso diário, que se abriu para as mudanças da Internet, ainda não faz um bom uso deste valor fundamental: transparência. Ninguém mais acredita no jornalista como um juiz. E faz muito bem. A razão é simples: jornalista não é juiz.