3 de julho de 2009

JOSÉ AGRIPINO RESPONDE ACUSAÇÃO DO PT

MÁRCIO FALCÃO

da Folha Online, em Brasília

Em resposta às críticas do PT, o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), afirmou nesta quinta-feira que a crise política que atinge o Senado é responsabilidade exclusiva do presidente da instituição, José Sarney (PMDB-AP). Agripino disse que dói mais no DEM --principal apoiador de Sarney na disputa pelo comando da Casa-- do que no PT pedir o afastamento do peemedebista porque é como "cortar na própria carne".
O líder disse que o DEM votou com consciência em Sarney pela importância histórica do peemedebista, mas que a cobrança para a licença surge porque as investigações precisam ter credibilidade.
"A responsabilidade pela crise é responsabilidade exclusiva do presidente Sarney. O presidente Sarney é um estadista com uma grande história e grandes méritos, mas que não impede de fazer uma investigação transparente só porque ele é objeto. Foi mais difícil para nós essa proposta do afastamento do que para vossas excelências. Rasgamos na própria carne em benefício da instituição", afirmou.
Agripino disse que não é possível apenas dizer que os parlamentares do DEM que ocuparam a primeira secretaria nos últimos ano também tem responsabilidade pela crise sem apontar as irregularidades. "Quero que o senador Mercadante aponte alguma irregularidade praticada pelo DEM. Se ele está falando isso, tem a obrigação de apontar as falhas do DEM. Do contrário, o senador vai ficar no campo da leviandade", disse.
O democrata negou que o partido tenha abandonado o presidente do Senado. "Temos que ter apreço por esta Casa. Nossa iniciativa e nossas ações são a favor da Casa. Não abandonamos Sarney. Não pedimos que vá ao Conselho de Ética. Só queremos que as investigações ocorra em clima de isenção, sem a dúvida de que ocorreu com a tutela de alguém. Temos que passar a limpo", afirmou.
O líder do DEM disse que a bancada do PT precisa lembrar que votou, em 2003, a favor da eleição de Sarney para a presidência, assim como em Renan Calheiros (PMDB-AL) e Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). "Os três senadores mantiveram Agaciel Maia no cargo. Quem mantém ou demite um diretor é o presidente do Senado", disse.

PRESIDENTE DO PSDB CRITICA LULA E DIZ QUE SARNEY NÃO TEM MAIS AUTORIDADE PARA DIRIGIR SENADO

da Folha Online


O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), criticou hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse ontem que a oposição queria ganhar o comando do Senado "no tapetão". Guerra disse que é uma afirmação "equivocada e desinformada".
"O presidente disse isso lá fora. A nossa impressão é que o presidente anda viajando demais e desinformado sobre o que acontece aqui", disse Guerra.
Segundo ele, não existe a possibilidade de o PSDB ganhar a presidência do Senado no tapetão. "Se o presidente Sarney renunciar, o vice-presidente assume por uns dias e vai ter que fazer eleições depois. Se o presidente Sarney se licencia, o vice-presidente assume para num prazo determinado,que também é breve, fazer novas eleições. Então é uma falsa questão. O PSDB não quer tomar o poder, muito menos no tapetão. O PSDB quer que o Senado se resolva e se resolva para o bem do Brasil."
O presidente do PSDB afirmou que precisa resolver o problema da falta de autoridade no Senado. "Nós pedimos que ele se afastasse por 60 dias e que, ao longo desses 60 dias, se desse uma profunda reforma no Senado. [...] Para que o presidente Sarney voltasse do seu afastamento para tomar uma decisão sobre o que fazer e o que não fazer, enfim, impor a sua autoridade. O problema central é que não há autoridade no Senado agora e nós não podemos ficar nessa situação sem autoridade."

A HISTÓRIA DA CRISE NO SENADO CONTADA COMO FOI


A situação de Sarney que a cada dia demonstra maior instabilidade está obrigando o presidente Lula a fazer acrobacias e malabarismos para defender o aliado e companheiro, ou como diz FHC, a “abusar das palavras”.
Objetivando garantir a participação do PMDB na sustentação da candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) em 2010, Lula sinalizou que se manterá ao lado de Sarney. Na terça-feira, Lula mandou recado a Sarney e pediu a Dilma que convencesse o pemedebista a não tomar decisão sem antes conversar com o presidente. Os rumores de que Sarney renunciaria eram fortes a e família dele teria pedido para renunciar.
A atitude de Lula, revela a contradição que vive a bancada do PT: a maioria é favorável ao afastamento de Sarney. Nove dos 12 senadores do partido deverá disputar um novo mandato em 2010 e temem desgastar-se com o eleitorado ao defender o pemedebista. Ao mesmo tempo, defendem a aliança com o PMDB para reforçar a candidatura de Dilma à Presidência e para garantir a governabilidade no Senado, onde o governo tem dificuldade para obter maioria.
É preciso, contudo, recordar que o PT não apoiou a eleição de Sarney para a presidência do Senado. Lançou a candidatura do petista Tião Viana (AC) e aproximou-se do PSDB para sustentar a candidatura do senador acreano. Sarney recebeu o apoio do DEM.
As alianças políticas articuladas para a eleição do Senado se tornaram diferentes das alianças políticas que existem a nível nacional. Essa situação permaneceu durante os quatro primeiros meses do ano. o DEM era o principal aliado do PMDB e o PT teve o apoio do PSDB em votações.
Aliados de Sarney atribuem denúncias contra o presidente da Casa a setores do PT ligados a Viana e a alas do PSDB próximas ao governador José Serra (SP), que seriam fontes da divulgação de irregularidades que, para desespero de Lula, Sarney, Renan e aliados no Senado, têm sido comprovadas.
Com o desenrolar da crise envolvendo Sarney, petistas e pemedebistas começam à retornar à configuração anterior da aliança. O DEM afastou-se do presidente da Casa, aliando-se ao PSDB no pedido pelo afastamento imediato de Sarney do cargo, com duras críticas à atuação do senador. Já o PT reaproximou-se do PMDB. Na avaliação de Wellington Salgado (PMDB-MG), um dos principais defensores de Sarney, " a única coisa boa da crise " é que ela aproximou PT do PMDB.
Na avaliação de senadores, a crise administrativa começou a ser sanada, com a demissão de diretores ligados ao ex-diretor Agaciel Maia e através do corte de algumas despesas. Mas a crise política continua e é grave. O PT saiu em ataque ao DEM e disse que a primeira-secretaria, ocupada há anos pelo DEM, deveria ser responsabilizada junto com Sarney. PSDB, DEM, PDT e P-Sol mantiveram a pressão pelo afastamento do pemedebista.
O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), desafiou o líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), a apontar alguma irregularidade administrativa praticada na Casa da qual o partido tenham participado. “Quero que o senador Mercadante aponte alguma irregularidade praticada pelo Democratas. Se ele está falando isso, tem a obrigação de apontar as falhas do DEM. Do contrário, o senador vai ficar no campo da leviandade”, afirmou José Agripino.
O líder do DEM lembrou que a bancada do PT votou, em 2003, a favor da eleição de José Sarney (PMDB-AP) para a presidência, assim como em Renan Calheiros (PMDB-AL) e Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). “Os três senadores mantiveram Agaciel Maia [ex-diretor-geral do Senado] no cargo. Quem mantém ou demite um diretor é o presidente do Senado”, destacou José Agripino.
Agaciel Maia foi demitido por Sarney após a imprensa publicar denúncias de que, ao longo de 14 anos à frente da diretoria-geral da Casa, teria praticado uma série de irregularidades como, por exemplo, a edição de atos secretos para beneficiar servidores e parentes de parlamentares, inclusivo do atual presidente do Senado.
Agora, durante a realização de ato nesta quinta feira em memória da ex-primeira dama Ruth Cardoso, O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), rebateu nesta quinta-feira a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o PSDB quer derrubar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), para ficar com o cargo "no tapetão"."O PSDB apoiou o candidato do PT ao Senado na eleição na qual foi eleito o Sarney", afirmou o governador em um evento em "Não vejo essa gula."
A declaração foi uma resposta a Lula, que ontem disse que o PSDB quer ficar com o posto de Sarney. "É importante para o DEM e PSDB, que querem que ele [Sarney] se afaste para o [senador] Marconi Perillo [PSDB-GO] assumir, o que não é nenhuma vantagem para ninguém. A única vantagem é para o Marconi Perillo e para o PSDB, ou seja, que quer ganhar o Senado no tapetão", afirmou o presidente em visita à Líbia.
Antes, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também comentou o assunto. Ele afirmou que Lula "abusa das palavras" e diz "coisas levianas". "O presidente Lula, quando está fora do Brasil, não presta atenção nas palavras", disse no mesmo evento.

MANCHETES DOS PRINCIPAIS JORNAIS

Jornais nacionais

Agora São Paulo
Sai a tabela de descontos para a casa própria

A Tarde
Tumulto e protestos marcam o 2 de Julho

Correio Braziliense
Rumo ao colapso

Correio do Povo
GM produzirá 2 novos veículos no Estado

Diário do Nordeste
Classe C lidera as compras

Estado de Minas
Leishmaniose mata quatro vezes mais em BH que no país

Extra
Somente sete das 52 vans do Pedro 2º não são piratas

Folha de São Paulo
Desemprego nos EUA e Europa volta a piorar

Jornal do Brasil
Mulher perde mais empregos na crise

O Estado de S.Paulo
Com apoio do PT, Sarney se segura no cargo

O Globo
PMDB ameaça deixar o governo e enquadra PT

Valor Econômico
Empresas renegociam dívidas e driblam crise

Zero Hora
Lula força o PT a se reconciliar com Sarney

Jornais internacionais

The Washington Post (EUA)
Perda de empregos diminui esperança de recuperação

The Times (Reino Unido)
Comandante britânico é morto por bomba dos talebans

The Guardian (Reino Unido)
Desafio legal em inquérito

Le Monde (França)
Clima: o modelo sueco pode seduzir Europa?

China Daily (China)
Vendas de imóveis sobre e preços caem

El País (Espanha)
Chefe do CNI deixa cargo após veto a plano para deflagrar 60 espiões

Clarín (Argentina)
Gripe A: crescem as permissões para não ir trabalhar

2 de julho de 2009

INDEFINIÇÃO QUANTO A PERMANÊNCIA DE SARNEY ABRE DEBATE SOBRE SUCESSÃO


A ameaça de renúncia de Sarney produziu vários resultados. Um deles, que era o objetivo do senador maranhense amedrontou o PT, que já ensaiava aumentar a pressão pela licença, fazendo o partido do governo recuar, e voltar a dar o seu apoio a permanência de Sarney.
Mas, apesar do apoio do PT, Sarney não governa mais o Senado. Todos sabem que ele acabará deixando vaga a presidência, por licença ou por renúncia.
Essa constatação precipitou o debate sobre quem será o sucessor de Sarney e ocupará cadeira de presidente do Senado.
PSDB e DEM tentam desenhar o perfil do candidato ideal. Pedro Simon(PMD RS), Neuto do Couto (PMDB SC) ou Garibaldi Alves (PMDB - RN). O nome ainda não foi definido, mas já se conclui que terá de ser alguém do PMDB. Isso inviabiliza a possibilidade de aceitação de Marco Maciel, primeiro a ser cogitado pela oposição
Tião Viana (PT-AC) com disfarçado constrangimento, disse que não entra na disputa. “Nem que a cadeira fosse pintada de ouro”.
Mas, Renan e seu grupo, dividem seus esforços, de um lado, na tentativa de manter o companheiro na presidência, e de outro, na condução de um “Plano B”, que, por ora, articula quatro nomes : Romero Jucá, Garibaldi Alves e os ministros Hélio Costa (Comunicações) e Edison Lobão (Minas e Energia).
Hélio Costa, com as atenções voltadas para eleição do governo de Minas, talvez não se interesse. Lobão, aliado e fiel seguidor de Sarney, participaria da disputa como um seis que se dispõe a substituir o meia dúzia.
Restam Garibaldi e Jucá. O primeiro foi o presidente que substituiu Renan Calheiros. Não fez feio. Jucá, líder de Lula no Senado, responde a três inquéritos no STF. Num deles, é acusado de crime de responsabilidade por desvio de verbas públicas. No início do governo Lula, foi nomeado para o ministério da Previdência, mas não emplacou, derrubado por uma enxurrada de denúncias de corrupção.
Na terça-feira, Garibaldi foi um dos três senadores do PMDB que defenderam publicamente que Sarney se licencie do cargo. A tendência é de que a presidência permaneça nas mãos do PMDB. A avaliação entre os peemedebistas é a de que não há nomes viáveis e de consenso na bancada de 19 senadores em condições de suceder Sarney sem entrar em confronto com o Palácio do Planalto. As pretensões de Garibaldi de ocupar a presidência da Casa só se tornarão realidade em uma negociação de consenso entre todos os partidos.
A Constituição proíbe a reeleição de presidentes do Congresso na mesma legislatura. Garibaldi comandou o Senado entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2009 e, por isso, não pôde concorrer à reeleição no início deste ano. Agora, mesmo com a eleição de Sarney em fevereiro último, Garibaldi não poderia disputar novamente a cadeira de presidente do Senado porque está na mesma legislatura. “Não tem nenhuma vaga desocupada, não tem porquê se falar nisso”, desconversou Garibaldi sobre sua eventual candidatura à sucessão de Sarney

SABE COM QUEM FALA

DORA KRAMER

O ESTADO DE SÃO PAULO 02/07/2009


Ontem fez uma semana que o líder do PSDB diz todos os dias da tribuna do Senado que, descontadas as exceções de praxe, quem não é corrupto ou conivente entre seus pares é covarde.
No primeiro grupo estariam os participantes "ativos" da rede de ilicitudes e favorecimentos chefiada por Agaciel Maia, a quem o senador José Sarney abriu as portas do poder, ao nomeá-lo diretor-geral 14 anos atrás, quando assumiu pela primeira vez a presidência do Senado.
Do segundo, fariam parte os "passivos". Potenciais vítimas da munição de chantagem armazenada por Agaciel na forma de favores prestados - muitos constrangedores, alguns francamente ilegais - ao longo desse período, esses senadores estariam intimidados pelo receio de ter seus pecados revelados.
Basicamente é isso o que tem dito o senador Arthur Virgílio sem que ninguém o conteste. No máximo, um ou outro faz reparos à "agressividade" do tucano, mas de nenhum deles se ouviu até agora um "alto lá, nobre colega, veja como fala", a fim de se excluir daquelas categorias de parlamentar por ele aludidas.
É atitude semelhante à adotada pela direção do PMDB, quando o senador Jarbas Vasconcelos referiu-se ao partido como um centro de interesses ilícitos e/ou ilegítimos. Ali, a opção por não confrontar tinha a finalidade de deixar o dissidente falando sozinho até o efeito da denúncia se dissipar ou, quem sabe, aparecer algum fato capaz de desacreditar o senador.
Tentou-se dar dois ou três passos nesta trilha do descrédito, mas Jarbas Vasconcelos denunciou a manobra e acabou prevalecendo a tese do silêncio como o melhor remédio. Em boa medida sustentada pela ideia de que, sem a apresentação de provas, o testemunho do pemedebista não passava de difamação.
Isso, não obstante as evidências em contrário.
Muito bem. No caso agora dos desafios diários de Arthur Virgílio no plenário do Senado, a situação é bem mais complicada. Impossível de ser ignorada.
Para início de conversa, as acusações são lançadas sobre uma Casa cuja lisura está sob suspeição em virtude de fatos divulgados, sendo vários deles comprovados e a maioria incontestáveis.
O movimento dos partidos em prol do afastamento de Sarney da presidência é a prova material.
Por essa e muitas outras evidências será uma temeridade o Senado fingir que não está ouvindo nada. Todos estão vendo e ouvindo perfeitamente bem. Diante disso, urge alguma atitude.
Se os senadores pretendem continuar simulando indiferença, terão de deixar claro que o fazem com base em um de dois pressupostos: ou o senador Arthur Virgílio enlouqueceu ou tenta se defender do abrigo que deu a um funcionário fantasma difamando o restante da Casa.
Em nenhuma das duas hipóteses ele serviria para ser senador, muito menos líder de um partido que tem chance de ganhar a presidência da República no ano que vem.
Se está louco e delira, deve ser interditado. Se mente e avilta a instituição, merece abertura de processo no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar.
Agora, se continua na liderança é porque priva da confiança de sua bancada. Se não é alvo de processo, é porque a Casa recebe seus desafios como adequados e concorda com a divisão do Senado em duas categorias de parlamentares: os que se calam por covardia e os que silenciam por assumida vilania.
Este último grupo não tem jeito. Só sobrevive se jogar na linha do menor prejuízo possível. A indispensável virada estaria, portanto, nas mãos daquela outra ala. Mas, para isso, ela precisaria sair da toca e se dispor a enfrentar as dores de uma ruptura mais profunda.
Desse modo é inusitado que um senador suba diariamente à tribuna para apontar a existência de corruptos e covardes no colegiado sem que se sinta ofendido o suficiente para contestá-lo nem indignado o bastante para apoiá-lo.
À MODA DA CASA
A absolvição do deputado Edmar Moreira no Conselho de Ética corrobora a tese do "vício insanável" da amizade por ele defendida quando no posto de corregedor da Câmara e reforça a proposta de que os julgamentos por quebra de decoro sejam feitos na Justiça e não mais no Parlamento.
Pelo pior dos motivos: a perda da legitimidade e de autoridade do Legislativo para julgar a conduta dos parlamentares.
O relator Nazareno Fonteles pediu a condenação do deputado por uso indevido da verba indenizatória com base na quebra dos princípios constitucionais da probidade e impessoalidade.
A maioria do conselho o absolveu tomando como referência o regimento interno, que à época não explicitava o que era proibido ou permitido fazer com aquele dinheiro.
Entre a Constituição e o regimento interno, a Câmara dos Deputados manda às favas o artigo primeiro da Carta: "Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição."

EM BUSCA DE UM NOME

Por MERVAL PEREIRA

O GLOBO 02/07/2009


Nunca foi tão verdadeiro o axioma da política brasileira pós-democratização de que não é possível governar sem o apoio do PMDB, embora o partido não tenha capacidade de eleger o presidente. Um outro PMDB, o de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, chegou ao poder através de uma eleição indireta, mas acabou entregando o governo a um recém chegado, o senador José Sarney, que rompeu com o PDS do qual era presidente para liderar a Frente Liberal, uma dissidência fundamental para levar Tancredo à Presidência. Pela legislação da época, o vice tinha que ser do mesmo partido do candidato a presidente, e Sarney filiou-se ao PMDB, de onde nunca mais saiu e onde fincou raízes como um de seus principais líderes, se não o principal.
Hoje, a relação de dependência do presidente Lula com o PMDB do senador José Sarney cada vez mais se parece com a que o então presidente Sarney teve com o PMDB de Ulysses Guimarães.
Naquela ocasião, Ulysses Guimarães, que presidia a Câmara e poderia ter ficado no lugar de Tancredo, aceitou a interpretação do que chamou de “jurista do Sarney”, o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, e deixou que o maranhense assumisse provisoriamente a Presidência na ausência de Tancredo, situação que se tornou definitiva com a morte dele. Mas Ulysses manteve seu poder de veto no governo.
Diante da crise em que se vê envolvido, Sarney aguarda a chegada do presidente Lula da África para bater o martelo com ele sobre a melhor saída para preservar essa aliança política que tem um objetivo maior, o de garantir o apoio do PMDB à candidatura de Dilma Rousseff em 2010.
Parece praticamente impossível que a simples presença de Lula em Brasília debele a crise política que só fez crescer nos últimos dias, embora a simples proximidade já tenha feito o PT mudar de tom.
Pela manhã, uma comissão do PT comunicou a Sarney que a maioria da bancada do partido no Senado gostaria que ele se afastasse da presidência para que uma comissão suprapartidária comandasse ampla reforma administrativa na Casa.
Lá da Líbia, o presidente Lula deu o recado: a saída de Sarney só beneficiaria o PSDB, que tem no senador Marconi Perillo o vice-presidente da Mesa Diretora do Senado.
Os petistas, receosos do contágio de Sarney na eleição de 2010 — a campanha “Fora, Sarney” já virou moda no Twitter —, mais receosos ficaram ainda da reação do presidente Lula e recuaram da proposta.
Aguardam a chegada do “nosso guia” para resolver a questão, que tem que ter uma solução que não magoe Sarney nem deixe o PMDB com disposição de trair, que é seu esporte favorito, com ou sem motivo.
A saída de Sarney parece inevitável, mesmo porque, se ele teimar em permanecer no cargo, tudo indica que o bombardeio continuará pesado. Até mesmo o DEM, simpatizante da candidatura Sarney, agora não apenas retirou o apoio como ameaça levar o caso ao Conselho de Ética do Senado se sua premissa de uma investigação isenta não for aceita.
A questão agora é como encontrar uma saída honrosa para Sarney, que leve a uma nova eleição, e garantir que o próximo presidente do Senado seja um aliado do governo, de preferência do PMDB ou com seu apoio irrestrito.
O PT, no afã de enviar para seu eleitorado um sinal de que não estava comprometido com a administração Sarney, esqueceu-se do “dia seguinte”, isto é, de que quem assumiria a presidência do Senado durante a licença dele seria o representante do PSDB, coisa que Lula não quer.
Especialmente por se tratar do ex-governador de Goiás Marconi Perillo, que lhe causou grandes problemas na época do mensalão, quando revelou que o havia alertado sobre a existência do esquema de compra de votos na Câmara.
Lula teria respondido que esse esquema era atribuído ao ex-ministro tucano Sérgio Motta.
Foi também no mensalão que se cristalizou a amizade entre Sarney e o presidente Lula, quando este estava pressionado pelos fatos, e pelos seus próprios correligionários, a fazer acordo para não ser impedido na Presidência.
Os então ministros Antonio Palocci e Márcio Thomaz Bastos chegaram a sugerir que ele se comprometesse a não se candidatar a reeleição para poder terminar seu mandato.
Lula recebeu a solidariedade irrestrita de Sarney, que era o presidente do Senado na ocasião e disse que renunciaria ao cargo junto com ele se fosse preciso.
O prestígio de Sarney ficou explícito quando conseguiu nomear o senador Edison Lobão para o Ministério das Minas e Energia num momento delicado da energia no país. E foi o de Lobão o primeiro nome a ser pensado pelos correligionários do governo para ser lançado como candidato do PMDB à sucessão de Sarney no Senado, hipótese improvável já que seria como mantê-lo no lugar.
A questão agora parece ser encontrar um nome que possa resistir à ofensiva da oposição, aglutinar a base aliada e manter a aliança PT-PMDB intacta.
O DEM, que fez um acordo heterodoxo com o PT para eleger Sarney, já está descomprometido com sua presença na presidência do Senado e articula uma candidatura alternativa.
Qualquer dos lados, na definição do líder do DEM, senador Agripino Maia, terá que escolher um nome que seja “muito parecido com Jesus Cristo”, e, se for mulher, com “Nossa Senhora”, porque, se não, será triturado pelas denúncias. E está difícil achar esse exemplar entre os 81 senadores de Brasília.

O PT NA VANGUARDA. DO ATRASO

PARIS - Indecente. Pusilânime. Vergonhoso. Que mais se pode acrescentar a respeito do comportamento do PT no episódio José Sarney? Xingar a mãe, não posso. É proibido pela etiqueta desta página.
Mas seria o correto.
Não vou nem lembrar o passado combativo do partido e de seu líder, Aloizio Mercadante, em episódios anteriores à chegada ao governo federal. Esse passado já foi sepultado faz tempo.
Ajuda-memória: pelo episódio do mensalão, o procurador-geral da República, nomeado pelo presidente de honra do PT, um certo Luiz Inácio Lula da Silva, acusou a cúpula petista de formar uma "quadrilha". O Supremo Tribunal Federal, com o voto de ministros também indicados por Lula, decidiu haver indícios suficientes para aceitar a acusação e proceder ao julgamento, aliás em curso.
Fica claro que o passado de supostos campeões da moralidade pública está morto e bem enterrado. Mas o presente podia ao menos guardar um mínimo de coragem, de vergonha na cara. Podia, por exemplo, defender Sarney pura e simplesmente, fosse qual fosse o argumento ou pretexto a utilizar: necessidade de não tumultuar o cenário político, falta de elementos concretos para afastar o presidente do Senado -enfim, qualquer dessas desculpas que os políticos se habituaram a usar para serem coniventes com trambiques.
O que não cabia é deixar de apoiar Sarney mas apenas por 30 dias, que foi o prazo dado pelo partido para o afastamento do presidente do Senado. Tampouco cabia sugerir uma comissão para uma reforma administrativa da Casa, sem menção a punições pelas irregularidades já descobertas e já confessadas.Se algumas são legais, nem por isso deixam de ser todas vergonhosas, muito vergonhosas.
O PT fechou enfim um círculo: passa de suposta vanguarda das massas à cúmplice do atraso.

A CORAGEM DE MANUEL ZELAYA E DE SEUS ALIADOS

O presidente afastado de Honduras, Manuel Zelaya, com toda arrogência e bravata peculiar a algumas lideranças da esquerda latino americana, anunciou que voltaria na quinta-feira à Honduras, acompanhado de Cristina Kishiner e Rafael Correa, para reassumir seu cargo.Na
Em resposta ao anúncio de que Zelaya, o governo interino de Honduras avisou que não existia "a mais remota possibilidade" dele retomar seu posto. Depois, a Justiça de Honduras expediu uma ordem de prisão contra Zelaya, acusando-o Zelaya 18 delitos, entre eles "traição à pátria".
Percebendo, que o governo interino não cederia, Cristina Kishiner desistiu de acompanhar o cumpanhero, segundo os jornais argentinos, por causa da gripe suína no seu país.
Hoje foi a vez do próprio Zelaya desistir de voltar, anunciou que “resolveu adiar” seus planos.

ADIADO O RETORNO DE ZELAYA A HONDURAS

Honduras desafia pressão e presidente deposto adia volta ao país

O governo interino de Honduras desafiou nesta quarta-feira a pressão internacional e afirmou que não existe nenhuma chance de o presidente deposto Manuel Zelaya voltar ao poder, apesar do ultimato dado pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
O governo interino, liderado por Roberto Micheletti, declarou que Zelaya será preso se regressar ao país, e o presidente deposto acabou adiando sua volta.
"Não há a mínima possibilidade, o presidente Zelaya está fora por ordens do povo", afirmou o ministro das Relações Exteriores interino, Enrique Ortez, em entrevista à Reuters.
Na sua casa, em Tegucigalpa, Ortez acrescentou que não existe negociações com nenhum governo estrangeiro nem com organismos como a OEA sobre um eventual retorno do presidente deposto.
"Não se negocia a soberania, não estamos negociando absolutamente nada", disse o veterano político hondurenho.
Armados, um grupo de militares tirou Zelaya de casa no domingo e o obrigou a embarcar para a Costa Rica. O presidente promovia uma consulta popular em Honduras, que poderia lhe abrir o caminho para a reeleição, considerada inconstitucional pela Justiça e pelos partidos políticos.
A OEA se uniu à condenação internacional do "golpe militar" em Honduras. Num ultimato, a organização deu 72 horas para que o governo interino garanta o retorno "incondicional" do presidente "a suas funções constitucionais". Caso contrário, Honduras seria suspensa do organismo.
Em Washington, o embaixador do governo de Zelaya junto à OEA, Carlos Sosa, declarou que o secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, indicará uma comissão para contatar o presidente interino e negociar uma saída para a crise antes que vença o prazo dado.
Zelaya, que havia anunciado o seu retorno a Honduras para esta quinta-feira, postergou a volta, ao mesmo tempo que foi para o Panamá para assistir à posse do novo presidente do país, Ricardo Martinelli.
"Os golpistas serão julgados se não houver uma ratificação o quanto antes. Se há uma possibilidade de diálogo (com o governo interino), lógico que a volta será para o fim de semana", afirmou Zelaya a uma rádio local. Depois das declarações, a rádio foi tirada do ar.
O ministro Ortez disse que se reunirá com uma missão de países da OEA que chega nesta quarta, mas afirmou que não permitirá a entrada de Zelaya. Ele seria preso, mesmo se viesse com outros líderes do continente ou com o chefe da OEA.
Insulza, junto com a presidente da Argentina e o do Equador, se ofereceram para acompanhar Zelaya no seu retorno, o que poderia aumentar a tensão no país dividido.
MANIFESTAÇÕES
Depois do apoio das Nações Unidas, da OEA, de Washington, da União Europeia e de quase todos os países da América Latina, Zelaya pediu que os seus simpatizantes se mantenham firmes nas ruas de Honduras.
"Não abandonem as ruas até conquistarmos a vitória. Estão sós, estão cercados", afirmou o presidente, em tom de ameaça, na sua primeira declaração a um meio local desde domingo.
Milhares de simpatizantes de Zelaya fizeram nova passeata nesta quarta no centro da capital hondurenha, exigindo o retorno do presidente deposto e gritando palavras de ordem contra o governo interino.
"Estamos aqui na rua e vamos estar todos os dias até o dia que o presidente legítimo regresse. Micheletti é um fantoche dos poderosos", afirmou Ramón, um universitário de 22 anos, que escondia o rosto e não quis dar o sobrenome.
O governo interino ampliou o toque de recolher até sábado e o Congresso aprovou um decreto segundo o qual algumas garantias constituicionais ficam suspensas durante o toque de recolher. O governo interino poderá deter e incomunicar pessoas por mais de 24 horas sem acusações.
Apesar de Micheletti contar com o respaldo do Congresso, do Judiciário, das Forças Armadas e dos empresários hondurenhos, a pressão internacional pela volta de Zelaya cresce. Espanha, França e Colômbia chamaram os seus embaixadores, somando-se a México, Venezuela, Cuba, Bolívia e outros países da América Central.
Não está claro se o governo interino tentará uma aproximação com os Estados Unidos, que criticaram o golpe e disseram que só reconhecem Zelaya.
Micheletti afirmou que uma comissão hondurenha em Washington está tentando explicar no Congresso norte-americano as razões para depor Zelaya, apesar de o ministro Ortez ter dito antes que não havia sido enviada nenhuma comissão aos Estados Unidos.
A crise política no país mais pobre da América depois do Haiti e da Nicarágua ainda não afetou a vital indústria têxtil nem a produção de café. Futuras sanções comerciais internacionais poderiam prejudicar a economia de Honduras.
(Reportagem Patrick Markey e Enrique Andrés Pretel em Tegucigalpa, colaboraram Susan Cornwell e Anthony Boadle em Washington, Lucas Bergman em Buenos Aires, Blanca Rodríguez em Madri e Ali Shuaib em Trípoli)