29 de maio de 2009

MÚCIO VÊ DESAFINAÇÃO EM DEBATE SOBRE MEIO AMBIENTE


O ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, evitou comentar as críticas a outros ministros feitas pelo titular do Meio Ambiente, Carlos Minc, que acusou colegas, sem identificá-los, de usarem "suas machadinhas" para "esquartejar o meio ambiente". Para ele os recentes e constantes confrontos entre autoridades do meio ambiente com representantes do setor do agronegócio mostram uma "desafinação.

Múcio minimizou as declarações feitas por deputados ruralistas contra o ministro do Meio Ambiente. "Acho que há uma desafinação qualquer neste samba. A gente precisa ver quem disse e quem não disse. Agora, o Congresso é soberano. A gente tem de entender que o Parlamento é soberano. Temos de combinar as coisas. Mas tudo vai chegar a um bom termo." José Múcio Mnteiro (Relações descartou também a saída de Carlos Minc do Ministério do Meio Ambiente em consequência do bate-boca com integrantes da bancada ruralista na Câmara.

- "Isso [pedido de demissão] eu não acredito", afirmou Múcio, que admitiu ter recebido reclamações de Minc de vários deputados.

Ontem, Minc chamou os parlamentares da bancada ruralista de "vigaristas". Depois, recuou e divulgou nota oficial para afirmar que não teve a intenção de insultar os deputados.

Para amenizar a troca de insultos, Minc se reuniu hoje com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para reclamar da interferência de vários ministérios na política ambiental do governo. Irritado com a ação de colegas para liberar obras sem licenciamento ambiental, Minc disse que a postura dos ministros "não é aceitável" dentro do governo.

Apesar das reclamações, Minc descartou pedir demissão do cargo. "Eu não condicionei a permanência no governo a absolutamente nada. A conversa com o presidente foi uma conversa a sós, tête-à-tête, olho no olho. Eu falei para o presidente que a área ambiental estava sendo muito agredida no parlamento, na sociedade, desfigurando projetos ambientais sobre estradas, sobre licenciamentos, sobre a própria questão da regularização fundiária, sobre o código florestal."

STEPHANES EVITA COMENTAR CRITICA DE MINC SOBRE RURALISTAS



O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, evitou comentar hoje com jornalistas o desabafo feito pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a respeito de demais colegas. "Não vou entrar nesta questão", disse Stephanes. Pela manhã, ao deixar o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), Minc disse que, na conversa que teve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criticou colegas de ministério, que segundo ele, estariam com suas "machadinhas" esquartejando a área ambiental. Minc reclamou também que combina uma coisa com os ministros e depois eles fazem negociações paralelas no Congresso

Mais cedo, Stephanes e Minc participaram de um café da manhã com os ministros de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende; da Educação, Fernando Haddad, e da Saúde; José Gomes Temporão. No café com produtos orgânicos, os ministros definiram as três instruções normativas que faltavam para a regulamentação da Lei dos Orgânicos. De acordo com um dos participantes do encontro, o ministro do Meio Ambiente teria elogiado o programa de orgânicos do Ministério da Agricultura. A resposta de Stephanes soou irônica aos demais ministros: "Minc, obrigado. Finalmente você reconheceu o trabalho do Ministério da Agricultura

A CNA QUE REPRESENTA OS RURALISTAS VAI DENUNCIAR MINC A COMISSÃO DE ÉTICA


A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) vai denunciar o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) à Comissão de Ética Pública da Presidência da República para investigar as declarações dele contra a bancada ruralista. Minc chamou de "vigaristas" os integrantes da bancada ruralista.
"Um funcionário público, que usa o posto que lhe foi confiado pelo presidente da República para desconstruir toda e qualquer ponte em direção ao diálogo com a classe produtiva, deve responder pelos seus atos em todas as instâncias", diz a nota assinada pela presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO).
Ontem, Minc atacou deputados da bancada ruralista após participar da marcha "Grito da Terra", na Esplanada dos Ministérios, ao lado de trabalhadores rurais da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).
Na nota, a senadora diz que o ministro "rompeu" os limites da civilidade, desrespeitou as regras "elementares" de convivência democrática e assumiu os riscos de responder por suas "afirmações difamatórias"
"O presidente da República, que tem em sua história passagem marcante pelo sistema sindical, certamente saberá avaliar e tomar as medidas cabíveis para conservar o ambiente democrático e republicano", diz Abreu em nota.
A CNA declara apoio à bancada ruralista do Congresso e diz que os produtores rurais estão compromissados com preservação ambiental e com a manutenção da produção de alimentos.
"O que não se admite, e não se pode admitir, é que o ministro do Meio Ambiente tente camuflar a solerte intenção de estabelecer o confronto no setor rural brasileiro, mostrando-se desqualificado para o cargo que ocupa", diz a nota.
Polêmica
Minc participou ontem do ato do Grito da Terra e atacou o agronegócio. "Não é justo tratar a agricultura familiar como agronegócio. Agora os grandes produtores atacam as leis de proteção ao meio ambiente, amanhã vão atacar a reforma agrária", disse o ministro do alto de um caminhão de som na manifestação.
O ministro também divulgou nota oficial para afirmar que não teve a intenção de insultar a bancada ruralista. "Não mencionei qualquer nome, não ofendi qualquer pessoa. Alertei sobre o risco de manipulação da agricultura familiar pelos grandes com o objetivo de usá-los como massa de manobra contra as proteções ambientais", diz Minc na nota.

SARNEY PEDE DESCULPÁS E FORMALIZA PEDIDO DE SUSPENSÃO DE AUXÍLIO-MORADIA

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e os três senadores acusados de receber irregularmente recursos do auxílio-moradia da Casa formalizaram hoje pedido de suspensão do benefício. Em ofícios encaminhados à terceira-secretaria do Senado, Sarney, Cícero Lucena (PSDB-PB), Gilberto Goellner (DEM-MT) e João Pedro (PT-AM) solicitaram o fim do pagamento e pediram o cálculo dos valores que devem ser reembolsados à Casa
Sarney também pediu desculpas ao reconhecer que, ao contrário do que afirmara, também estava na lista de senadores que recebiam o auxílio de R$ 3,8 mil mensais mesmo morando em imóveis oficiais, conforme reportagem publicada pelo jornal "Folha de S. Paulo". "Peço desculpas pela informação errada que dei", afirmou Sarney. "Eu nunca pedi auxílio-moradia e, por um equívoco, a partir de 2008, segundo me informaram, realmente estavam depositando o valor na minha conta".
Além de Sarney , que tem casa própria em Brasília, três outros senadores - João Pedro (PT-AM), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Gilberto Goellner (DEM-MT) - que moram em apartamento funcional também recebem auxílio no valor de R$ 3,8 mil.
Na reunião realizada na manhã de hoje, os integrantes da Mesa Diretora do Senado decidiram que os colegas que receberam irregularmente o auxílio devolverão, em parcelas, a partir do mês que vem, o dinheiro recebido a mais. De acordo com o primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI), o pagamento ocorreu "por falha administrativa da Casa".

VARGAS LLOSA: COM CHÁVES A VENEZUELA CAMINHA PARA A DITADURA

O escritor peruano Mario Vargas Llosa alertou hoje a Venezuela caminha em direção a uma ditadura sob a liderança do presidente Hugo Chávez e que o país poderá se parecer cada vez mais com uma autocracia comunista no modelo cubano. O aclamado escritor, que ficou retido por uma hora no Aeroporto Internacional de Caracas, quando foi advertido pelos funcionários venezuelanos a não fazer comentários políticos no país, abriu um fórum pró-democracia ao dizer que o governo Chávez "está se movendo para bem longe de uma democracia nos moldes liberais".
Ainda existe espaço para críticas", disse Vargas Llosa no fórum em Caracas. Mas "a ameaça de um blecaute na área dos direitos, liberdade de expressão e liberdade de imprensa cresceu significativamente", disse. Vargas Llosa e outros convidados vieram a Caracas participar de um seminário organizado pelo Cedice, entidade conservadora que está sob críticas dos aliados de Chávez. Sem citar o escritor peruano, Chávez disse hoje que intelectuais em visita à Venezuela vieram ao país para ofendê-lo.

DILMA CONVERSA COM COLLOR SOBRE PAC

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebeu por mais de uma hora o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL). No encontro, Dilma acertou com Collor sua presença na Comissão de Infraestrutura do Senado, presidida pelo parlamentar, para discutir as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).
O senador, antigo desafeto do PT, adiantou à ministra que fará uma análise "construtiva" das ações do PAC, principal programa de infraestrutura do governo e apontado como carro-chefe da eventual campanha presidencial de Dilma. Integrante da CPI da Petrobras, na cota da base aliada, o senador é uma das apostas do Planalto para neutralizar a oposição na comissão

28 de maio de 2009

SOB CONTROLE

Por Merval Pereira
O Globo - 28/05/2009

O governo já teve muita dor de cabeça com CPIs em que dominava tanto a presidência como a relatoria, como no caso da CPI dos Correios. É verdade que, naquela ocasião, o PMDB não estava tão ligado ao governo quanto hoje, e o relator Osmar Serraglio tinha espaço para ser isento a ponto de seu relatório ter servido de base para que o Ministério Público acusasse o ex-ministro José Dirceu de comandar uma quadrilha que trabalhava à sombra do Palácio do Planalto, acusação esta aceita pelo Supremo Tribunal Federal e em fase de depoimentos.
Já a CPI dos Bingos foi apelidada de CPI do "fim do mundo", porque lá qualquer coisa poderia acontecer. O então ministro Antonio Palocci acabou ferido gravemente em suas audiências, e teve que deixar o governo sob a acusação de ter quebrado o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que o acusara de frequentar uma casa no Lago Sul onde se misturavam lobbies e festas.
No próximo dia 4 de junho, o inferno astral de Palocci pode acabar com sua absolvição pelo Supremo, o que possivelmente lhe abrirá novamente as portas de um futuro político.
Mas nenhum susto desse tipo parece ameaçar o governo com a CPI da Petrobras, que será instalada na próxima semana. A decisão do presidente Lula de não abrir mão dos dois principais cargos da CPI - a presidência e a relatoria - dá pouca margem de manobra para a oposição, que também vai dividida para o embate político.
O DEM não parece tão entusiasmado com a CPI quanto o PSDB, e desde o início da disputa política foi acusado de fazer corpo mole para a sua aprovação.
Não é possível afirmar que o partido, depois de aprovada a CPI pedida pelo senador tucano Álvaro Dias, esteja se comportando de maneira dúbia, mas é evidente que não existe grande entusiasmo dos democratas pelo tema.
Somente a intransigência do governo, se recusando a dar a presidência para a oposição, acendeu o ânimo beligerante do líder do DEM, senador Agripino Maia, que propôs a obstrução do plenário do Senado como retaliação política.
Mas a obstrução é um instrumento da minoria para forçar uma negociação, e não um fim em si mesmo. Tanto que a oposição partiu para uma "obstrução seletiva", pois não tinha condições políticas de se opor à medida provisória que aumenta o salário mínimo.
Ainda existe uma possibilidade remota de o governo vir a abrir mão da presidência da CPI, como defendem alguns de seus importantes líderes, como Aloizio Mercadante ou o provável relator, Romero Jucá.
Mas ninguém está defendendo essa tese com muito entusiasmo, porque o presidente Lula colocou as coisas em termos de defender a Petrobras com todos os instrumentos possíveis. A
composição dos membros da CPI mostra, por si só, a importância que o governo está dando ao assunto. Todos são políticos "orgânicos", isto é, ligados aos interesses partidários mais imediatos e submetidos a uma disciplina que deixa poucas brechas para surpresas.
Três deles são suplentes, o que os liga diretamente aos "donos" das vagas, ou seus grupos políticos: Paulo Duque substitui o governador Sérgio Cabral; João Pedro é suplente do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Os dois não devem criar problemas para o governo. Já Jefferson Praia é suplente do falecido senador Jefferson Péres, e, se cumprir a promessa de seguir os ensinamentos de seu mestre, de quem foi aluno e assessor, pode ser uma figura independente durante os debates. Mas terá que construir sua história política, e não se sabe se tem fôlego para tanto.
O senador Inácio Arruda batalhou para fazer parte da CPI. Além da fidelidade total ao governo, tem uma tarefa específica: defender seu partido, o PCdoB, que domina a agência reguladora do petróleo (ANP), um dos alvos preferenciais da CPI, devido às denúncias de irregularidades na distribuição dos royalties do petróleo.
É muito provável que vejamos, no decorrer desta CPI, diversos recursos da oposição ao Supremo Tribunal Federal, a fim de defender seus pontos de vista fora do rolo compressor do plenário da CPI.
O problema é que os argumentos, na maioria políticos, não servem nos tribunais. Essa diferença entre as instâncias técnica e política é fundamental: no Congresso, as negociações são feitas visando ao interesse e à conveniência políticas, enquanto no Supremo o que norteia as decisões são a legalidade e a constitucionalidade.
Os políticos se queixam da "judicialização" da política, enquanto os ministros do Supremo, em diversas ocasiões, citam a "espetacularização" das investigações das CPIs, devido ao fato de serem transmitidas pela televisão.
O hoje ministro da Defesa, Nelson Jobim, quando discursou se despedindo do Supremo, advertiu que, se os políticos não são capazes de resolver seus conflitos e os perdedores querem continuar a disputa política nos tribunais, têm que saber que estão abrindo mão de seu poder de negociação e se submetendo a critérios que nada têm de políticos.
Na verdade, o Supremo, ao ser instado pelos políticos a se pronunciar sobre quebra de sigilo ou direitos individuais, acaba na prática criando uma jurisprudência sobre como devem funcionar as CPIs.
Por isso, já foi sugerido que o Congresso tomasse a iniciativa de fazer um documento com as principais normas, para que as próximas CPIs possam funcionar mais a contento. Já o ministro Cezar Peluso defendeu que o próprio STF edite uma súmula para "cristalizar" o entendimento dos ministros sobre os procedimentos legais que devem seguir os pedidos de quebra de sigilo bancário, fiscal ou telefônico de um investigado.

LULA COMANDOU ESCOLHA INTEGRANTES DA CPI

Por Adriana Vasconcelos
O Globo - 28/05/2009

Aliados do governo disputam cargos de relator e presidente da investigação sobre a Petrobras
Preocupado em evitar que a CPI da Petrobras se transforme em instrumento político da oposição para atingir a candidatura da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, principal formuladora da política energética do país, o presidente Lula teve participação direta nas escolhas dos partidos da base para compor a comissão, que começará seus trabalhos na terça-feira. Depois de ter vetado a cessão de qualquer cargo de comando na CPI à oposição, Lula agora terá de administrar as disputas entre os aliados pelos postos de presidente e relator. Além de enfrentar a obstrução seletiva deflagrada por PSDB e DEM.
Os dois partidos de oposição sugeriram uma inversão de pauta, que lhes permitiu aprovar ontem à noite a MP que fixou o novo salário mínimo em R$465. Tucanos e democratas estavam dispostos ainda a votar a favor de outras duas MPs, a da merenda escolar e a que capitaliza o BNDES, mas ameaçavam esticar a sessão madrugada adentro com o objetivo de derrubar a MP do Fundo Soberano.
CABRAL TENTA FAZER O SUPLENTE PAULO DUQUE RELATOR
Pelo menos três governistas queriam presidir a CPI: Ideli Salvatti (PT-SC), João Pedro (PT-AM) e Inácio Arruda (PCdoB-CE). Ideli seria a escolha do líder do PMDB, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas o fato de ser líder do governo no Congresso poderá atrapalhá-la, sobretudo se Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, vencer a disputa com Paulo Duque (PMDB-RJ) pela relatoria. O governador do Rio, Sérgio Cabral, entrou em campo para fazer Duque, seu suplente, relator.
Suplente do atual ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, do PP do Amazonas, João Pedro despontava ontem como o preferido de Lula. Com o argumento de que a atuação do ex-deputado Haroldo Lima, hoje no comando da Agência Nacional de Petróleo (ANP), seria um dos alvos da investigação da nova CPI, Inácio Arruda corria por fora, pressionando o PT ceder a presidência ao partido.
Mas a indicação de Inácio Arruda para a CPI abriu brecha para um troco da oposição. O presidente da CPI das ONGs, Heráclito Fortes (DEM-PI), aproveitou que o cargo de relator da sua comissão ficou vago e indicou o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM) para o posto. O governo, então, desistiu de ter Arruda na CPI da Petrobras e indicou Marcelo Crivella (PR-RJ)
Ontem, Lula conversou com Aloizio Mercadante (PT-SP) para afagar o líder do PT, excluído da CPI. Lula o havia enquadrado na véspera, para tirá-lo da CPI, percebendo que compraria briga com Renan, que vetava o petista. O temor de Lula era que Renan convocasse sua tropa de choque para a CPI. Até às 22h da terça, Renan resistia em indicar Jucá. Preferia nomes que ele pudesse controlar. A entrada de Jucá foi a moeda de troca para a retirada de Mercadante

UMA PETROBRÁS PARA LULA

EDITORIAL
O Estado de S. Paulo - 28/05/2009

Chávez manda na PDVSA mais do que Lula manda na Petrobrás. Talvez o presidente brasileiro inveje o colega venezuelano e as palavras ditas em Salvador, no encontro de terça-feira, fossem mais sérias do que pareceram naquele momento: "Se eu conseguir eleger a Dilma, vou ser presidente da Petrobrás", disse Lula. E completou: "Você, Gabrielli, vai ser meu assessor e o acordo vai sair." O tom foi de brincadeira, mas convém desconfiar da aparência. O acordo entre as duas empresas para a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, está emperrado. O principal obstáculo não é a disposição de Lula, mas a insistência de Sérgio Gabrielli, o chefe da estatal brasileira, em respeitar, em primeiro lugar, os interesses financeiros e econômicos da empresa e de seus acionistas. O presidente brasileiro, ao contrário, tem-se mostrado quase sempre inclinado a usar as companhias controladas pelo Tesouro para os objetivos de sua diplomacia. Nem as empresas privadas têm ficado imunes a essa perigosa mistura de política e negócios. Ameaçadas por barreiras comerciais impostas por vizinhos, não recebem apoio do governo, mas conselhos para se acomodar, negociar e não criar conflitos.
Lula nem chegou perto dos extremos a que chegou Hugo Chávez, mas nunca renunciou a politizar a gestão das estatais. Desde o começo de seu mandato, pressionou a Petrobrás para fazer encomendas a estaleiros nacionais, como se a empresa, além de trabalhar pela segurança energética do País, ainda tivesse de funcionar como instrumento de uma extemporânea política de substituição de importações. As tentativas de ingerência aumentaram com a descoberta do pré-sal, quando o presidente chegou a tratar a Petrobrás como se a sua gestão fosse incompatível com a defesa dos interesses nacionais.
Em seu esforço para politizar a gestão econômica, o presidente Lula chegou a se intrometer na administração de grandes empresas privatizadas, pressionando seus diretores para mudar decisões empresariais. O último episódio desse tipo foi a crítica ao anunciado corte de investimentos da Vale, como se o assunto fosse da alçada do chefe do governo.
Se o intervencionismo de Lula não se equiparou, até agora, ao do companheiro Hugo Chávez, não foi por falta de tentativas nem de apoio dos grupos mais fisiológicos e mais primitivos da chamada esquerda brasileira, abrigada em boa parte sob a bandeira do PT.
Em vez de continuar tentando comandar a Petrobrás e outras empresas, controladas ou não pelo Tesouro Nacional, o presidente Lula deveria prestar mais atenção às consequências do uso político da PDVSA.
A produção diária de petróleo na Venezuela caiu de 3,4 milhões de barris em 1999 para pouco mais de 2 milhões atualmente. Nesse intervalo, o país foi prejudicado tanto pelo afastamento de empresas estrangeiras quanto pela redução dos investimentos da estatal venezuelana. Abandonou-se a gestão baseada em padrões empresariais e subordinou-se a companhia aos objetivos políticos do caudilho venezuelano.
O aumento dos preços do petróleo permitiu a Chávez, durante anos, financiar sua ação populista, abrir caminho para prolongar sua permanência no poder e ainda sustentar a difusão do bolivarianismo nas áreas politicamente menos desenvolvidas da América Latina. Durante longos anos, o investimento produtivo foi esquecido na Venezuela - e não só no setor petrolífero. Quando os preços do petróleo caíram e o endividamento da PDVSA se tornou assustador, a solução encontrada por Chávez foi estatizar as companhias credoras, começando pelas fornecedoras de serviços na área do Lago Maracaibo.
Enquanto Chávez levava a outrora poderosa PDVSA à beira de uma catástrofe empresarial, a Petrobrás continuou na rota do crescimento e da consolidação entre as grandes companhias do setor. Essa expansão, favorecida por descobertas no Brasil e por investimentos bem-sucedidos no exterior, foi possível porque as tentativas de intervenção do governo foram insuficientes para eliminar o caráter profissional de sua administração. Mas o presidente Lula não parece ter desistido de imitar o companheiro bolivariano. Investigar as interferências na Petrobrás seria provavelmente mais oportuno e mais instrutivo que cumprir a pauta da CPI instalada por insistência da oposição

STF CONTRA RE-REELEIÇÃO

EDITORIAL
O Estado de S. Paulo - 28/05/2009

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, pronunciou-se contrário à ideia de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que possibilite ao presidente da República disputar, de modo consecutivo, um terceiro mandato - a re-reeleição. Interpretando o que considera ser a opinião dominante dos integrantes da mais alta Corte de Justiça do País, que dá a última palavra sobre a constitucionalidade das regras legais, inclusive as destinadas a mudar a Constituição, disse Mendes que "o terceiro mandato não passa no STF".
Para o presidente do Supremo a permissão legal para a disputa de um terceiro mandato presidencial ou a ampliação do atual para seis anos seria um casuísmo. "As duas medidas têm muitas características de casuísmo. Vejo que dificilmente isso seria aprovado no STF", afirmou o ministro, para quem essas propostas representariam um prejuízo aos princípios republicanos. "Democracia constitucional é mais do que eleição. É eleição sob determinadas condições estabelecidas na Constituição, inclusive o respeito às regras do jogo", observou Gilmar Mendes, reiterando que "a eleição continuada seria uma lesão ao princípio republicano". Ele também fez a diferenciação entre a mudança da regra que permitiu a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e a ideia, agora, de um terceiro mandato presidencial: é que uma reeleição é uso já consagrado em muitas democracias contemporâneas, enquanto a terceira eleição seguida - ou a quarta ou a quinta - significa uma quebra real do princípio democrático da alternância do poder.
Gilmar Mendes não é o primeiro nem o único ministro do Supremo a posicionar-se contra o terceiro mandato consecutivo. Posições semelhantes - com algumas variações - já assumiram os ministros Carlos Ayres Britto, Marco Aurélio Mello, Joaquim Barbosa e Cezar Peluso. Por sua vez, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, é enfático ao comparar um terceiro mandato presidencial seguido a um "golpe de Estado". Diz ele: "Por melhor que seja o governante, não se pode partir do pressuposto de que ele é o único. O terceiro mandato não está previsto na Constituição Federal e acredito que não está previsto de forma correta. A alternância de poder é um dos pilares da democracia. A hipótese de se prorrogar mandatos não é compatível com o princípio democrático. O presidente Lula não iria afrontar sua biografia", conclui o presidente da OAB.
Mesmo contestada publicamente pelo presidente Lula, a ideia de que possa disputar um terceiro mandato em 2010 não é nova e já estava praticamente fora dos bastidores do Congresso quando se fortaleceu por conta da doença da ministra Dilma Rousseff, ungida - com grande antecedência - pelo presidente como candidata preferida a sua sucessão, apoiada pelos partidos que integram a base de apoio do governo, especialmente o Partido dos Trabalhadores, a cujos quadros a ministra pertence. Se vencendo os obstáculos políticos - e até o tempo curto que restaria hoje para que já pudesse valer para as eleições do ano que vem - uma proposta de emenda constitucional em favor da re-reeleição presidencial tiver êxito no Congresso, certamente haverá de enfrentar outros problemas, de natureza jurídico-constitucional, a serem decididos no Supremo.
Já estão em discussão, como se vê pelas declarações do ministro Gilmar Mendes e de vários políticos, questões de princípios relacionados à alternância do Poder. Por mais que questões relativas a sistemas eleitorais e de sucessão do Poder possam e devam ser objeto de reflexões e debates, o que não se pode negar é que no bojo da proposta do terceiro mandato há um flagrante casuísmo - e nem sua associação com o precedente da introdução da reeleição, ao tempo do governo FHC, lhe tiraria essa característica. "Mesmo com a aprovação de uma PEC, a democracia pressupõe a alternância do poder. Já houve um erro grave quando se aprovou a reeleição. Quem pode três mandatos pode quatro, pode cinco, pode seis. Perde-se o controle e se torna uma perpetuação no poder" - vaticina o presidente da OAB. Dá para contestá-lo?